Habemus Papam

Março 12th, 2013

Se há dia em que faz sentido recomendar um filme, é este.

Começa hoje o conclave para a eleição do novo Papa e isso fez-me lembrar um excelente filme de Nanni Moretti que vi há uns tempos, chamado “Habemus Papam”.

É interessante porque mostra toda a dinâmica interna de sucessão do Sumo Pontífice, mas tem um twist verdadeiramente delicioso, que alimenta a história: o eleito acha que não é capaz de exercer o cargo, tem uma crise de pânico e recusa-se a assumi-lo já depois de ter saído fumo branco pela chaminé da Capela Sistina, e quando as portas da varanda que dá para a praça de S. Pedro já estão abertas.

Instala-se o caos  interno e entra-se em estado de emergência dentro de portas, enquanto cá fora a multidão espera, sem saber o que se passa.

É então chamado o melhor psicanalista italiano para tentar convencer o cardeal e assistimos a toda a luta interna desta personagem, brilhantemente interpretada por Michel Piccoli.

Vale a pena vê-lo, principalmente no contexto atual, porque dá uma perspectiva muito interessante ao tema.Habemus-Papam_pics_809

Mais um pintainho no Ninho

Março 11th, 2013

Os mais recentes dias das nossas vidas aqui pelo Ninho foram marcados pelo mais belo dos acontecimentos: o nascimento de mais um pintainho!

Um pintainho pequenino, saudável, sossegadinho (até ver) e lindo como o irmão.

A riqueza da paternidade ganha uma dimensão completamente diferente, quando assistimos a momentos tão ternurentos quanto surpreendentes.

Quando o maior dos receios era a reação do primogénito à chegada deste novo elemento à família, somos desarmados pela inocência e pureza hospitaleira com que um pequenino de apenas 15 meses recebe com um beijo e um sorriso o seu irmão e lhe tenta entregar a sua chupeta.

Ver essa ligação fraterna, inexplicável conscientemente, a revelar-se à nossa frente apanha-nos de surpresa e emociona-nos.

É difícil expressar por palavras o que se sente quando assistimos, por exemplo, ao primeiro sorriso deste novo pintaínho respondendo a um “olá” do irmão.

O desafio e as responsabilidades são agora muito maiores, o cansaço físico será uma companhia constante, seguramente, mas com o amor destas duas crianças a encher este ninho, respiramos um ar de humanidade que nos inspira a ser melhores e mais capazes todos os dias, para poder merecer esta benção.

Lá fora o céu está cinzento escuro, chove imenso, está frio e muito vento, mas cá no Ninho a luz é por estes dias intensa e o calor dos nossos corações faz-nos sentir como num solarengo paraíso tropical, perspectivando já o futuro com os pezinhos na areia, a fazer castelinhos, os quatro.

Assim seja!

Bird family

 

 

 

Espremedoras de espinhas

Janeiro 31st, 2013

O que é que faz as mulheres gostarem tanto de espremer borbulhas?

Para qualquer homem, uma borbulha – ou espinha ou acne ou o que lhe quiserem chamar – é algo repugnante, com pús, inestético e doloroso.

A coisa menos sensual e atraente do universo logo a seguir a vómito a escorrer pelo canto da boca.

Aconselha-se distância visual e física deste tipo de protuberâncias para o sexo masculino.

No entanto, para as mulheres – ou um parte significativa delas, pelo menos – existe um magnetismo estranho pelas espinhas que as leva a entrar em êxtase quando vêem uma, na perspectiva de a poderem espremer.

Existirá algo mais inexplicável do que isto?

Andam por aí à cata de espinhas e quando vêem uma perguntam logo, com um sorriso na cara, se a podem espremer, como se isso fosse o ato mais fascinante de partilha do corpo que possam sugerir ao homem.

Às vezes penso se não estarei a gastar demasiado dinheiro a comprar presentes para a minha mulher.

Se calhar bastava deixar de me lavar e comer tudo o que potencialmente causasse erupção cutânea para a ver aos saltinhos sempre que chegasse a casa, como se todos os dias fossem de aniversário ou Natal.

Para sossego de quem abomina ser dolorosamente espremido já há quem tenha pensado na forma de acalmar a espinhoespremomania, e tenha desenvolvido uma aplicação para smartphones onde se pode espremer virtualmente espinhas da cara.

Deve estar para as senhoras com este fétiche como os pensos de nicotina estão para os fumadores, talvez não lhes satisfaça na plenitude a sua espinhoespremodependência, mas não deixa de constituir uma réstia de esperança de sossego indolor para quem se relaciona com estas espremedoras de espinhas.

Solicita-se aos programadores o desenvolvimento da variante pontos negros desta aplicação, por favor.

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Moncocausto

Janeiro 24th, 2013

Hoje temos conosco Frederico Burrié, presidente do MAM (Movimento de Alerta para o Moncocausto) que irá hoje fazer uma intervenção na ONU para dar conta das suas preocupações.

– Sr. Burrié, bom dia, qual é a mensagem que traz hoje à Nações Unidas?

– Bom dia! Olhe, o que nos traz aqui hoje é a necessidade de alertar o Mundo para o verdadeiro Moncocausto a que assistimos diariamente, sem que ninguém faça nada para o travar.

– Moncocausto é um expressão com a qual os nossos leitores talvez não estejam familiarizados, quer-nos explicar o que é?

– É a erradicação massiva e/ou deslocação involuntária de moncos, ou mucosidades nasais secas se preferir, das cavidades ou fossas nasais.

– E de que forma é que isso é feito?

– Olhe, isso é feito geralmente de forma manual, com a inserção do indicador para remoção das mucosidades secas da narina, nas mais variadas situações: no carro, na casa de banho, a ver televisão, … por todo o lado vemos seres humanos a esgravatar as fossas nasais extraindo moncos que não estão ali a fazer mal a ninguém.

– É portanto algo comum na sociedade.

– Evidente! É um flagelo diário. Um genocídio da nossa espécie que acontece por todo o lado, apesar de muitos o negarem.

– Não serão os moncos perigosos para a saúde dos humanos, no sentido em que obstruem as vias respiratórias?

– Isso é uma falsa questão! Nunca ninguém nos pediu que nos desviássemos, porque senão tínha-mo-lo feito. Somos secreções que gostamos de gerar consensos e não nos custava nada desviar um pouco para passagem de ar se alguém, alguma vez, nos tivesse pedido para o fazer.

– E se for alegado que vocês são saborosos e nutritivos, devendo por isso ser encarados como víveres?

– Só aceito esse argumento quando me mostrarem uma roda dos alimentos onde estejamos representados e um prato confecionado à base de moncos num restaurante com pelo menos uma estrela Michelin. Tudo o que for fora disso é pura demagogia e especulação.

– O que é que acontece às mucosidades secas depois de removidas das cavidades nasais?

– A maioria é realojada na cavidade bocal, mas não existem condições de habitação ali nem em nenhuma localidade do sistema digestivo. Sítios muito húmidos, escuros, sempre com comida a entrar e a sair e com um cheiro que não se aguenta. Demasiadamente insalubres para nós, que necessitamos de sítios com pilosidades que filtrem quem entra e quem sai, com vista para a rua e onde se possa estar sossegado. Os mais desafortunados são mandados para outras fossas, como as sépticas por exemplo, ou mesmo colados em cadeiras ou postos na borda de pratos, onde é absolutamente impossível manter uma família.

– O que é que vêm aqui solicitar então?

– Em primeiro lugar o recenseamento universal obrigatório dos moncos, para que se possa identificar com maior acuidade o desaparecimento de algum. Em segundo lugar, a criminalização da erradicação ou realojamento involuntário de moncos. Temos que parar de uma vez por todas com este verdadeiro Moncocausto. Em terceiro, que nos deixem de chamar macacos, porque estamos fartos que nos venham buscar para levantar carros sempre que fura um pneu.

– Como seria o Mundo ideal para si?

– Um planeta que me permitisse estar tranquilo com a minha mulher e os meus filhos num sítio confortável e sem medo de ser removido abruptamente e contra a minha vontade. E escusa de ser num Júlio Isidro, que sou gente modesta, o importante é poder dar aos meus filhos um lugar seguro para viver.

– Obrigado e boa sorte para a vossa luta sr. Burrié.

– Obrigado pela oportunidade e bom dia para si.

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