Livros de declamações

Março 6th, 2014

Cada vez mais sinto que a cultura em Portugal é menosprezada, relegada para segundo plano e até demonizada por uma franja cada vez maior da sociedade, que vê o investimento nela como um desperdício de tempo e dinheiro.

E assim vamos encarneirando um povo à volta de programas onde o único valor acrescentado é o das chamadas telefónicas, patrioticamente apelidados de “Portugal em Festa“, “Somos Portugal” ou “Aqui Portugal“.

É normal assistirmos ao público enxovalhamento dos agentes culturais – esses valdevinos sanguessugas de dinheiros públicos -, ao mesmo tempo que se elevam a vedetas de primeira água as belas rês lusitanas de Casas dos Segredos e afins.

Nas ruas discutem-se mexericos, nos cafés comentam-se plasticidades, no trabalho há entretenimento em torno das má-criações da véspera, nos lares executam-se lobotomias televisivas.

Acho mesmo que estamos perante um fenómeno de culturofobia, um pavor desmesurado por tudo o que possa constituir-se como um ato cultural, uma apologia do belo ou uma elevação da palavra.

A cultura popular quer-se ligeira e brejeira, e tudo o que fugir disso é mais temido do que um tufão de proporções épicas (que até é giro, porque causa ondas gigantes e casas esmagadas por árvores centenárias).

Se pensarmos bem nisto, temo estarmos cada vez mais próximos do dia em que vamos acabar com os livros de reclamações na lojas, pela sua inutilidade, para os substituirmos por livros de declamações.

A eventual ameaça do cliente para o logista de que lhe declamará um poema, tende a ser uma arma poderosíssima, dada a imensa dor cerebral que lhe poderá infligir por este ato, potencialmente condenando-o a um enfado fatal.

Não fora o facto de ser economicamente inviável, e neste contexto eu até era menino de abrir uma loja com o propósito de tratar mal os clientes e assim poder ouvir as suas declamações.

Principalmente daqueles que entretanto até já se esqueceram de como se lê.

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