Surrealismo noturno

Fevereiro 6th, 2014

O nosso cérebro tem um modo de funcionamento absolutamente excecional, que nos permite ser moderadamente racionais quando estamos conscientes, mas que permite uma autêntica revolução surrealista quado estamos a dormir.

Esse verdadeira jabardice cerebral que acontece durante o nosso sono, reflete-se nos mais originais sonhos, sendo que, infelizmente, não nos conseguimos lembrar da maioria deles.

Acontece que, quando alguém é obrigado a acordar temporariamente a meio da noite – para dar leite ou mudar a fralda a um bebé, por exemplo -, tem o inefável privilégio de irromper por esse chavascal sináptico dentro, assistindo em lugar privilegiado ao desenrolar desta surreal rambóia neuronal.

Não sei se já vos aconteceu, mas eu já dei por mim semi-acordado – ou meio a dormir, para ser mais exato – a observar a passagem pelo meu crâneo de pensamentos do género “vou ali agitar a bigorna rosa que lambeu o insuflável”, ou “verta-me aí uns narizes na porta de uma aldeia velha com gelo”, ou ainda “desviei-me de uma estrela cadente debaixo do guarda-chuva dos pinheirinhos”.

A maior parte das vezes tento voltar a estes pensamentos quando acordo, na tentativa de lhes fazer uma biópsia que revele algum sentido naquela junção de conceitos avulsos, mas já cheguei à conclusão que não vale a pena.

Estes vampiros da estupidez, além de dados ao regabofe, são camaleónicos, e conhecem os melhores esconderijos dentro da minha favela mental, o que os torna mais indetectáveis do que um piolho terrorista nas montanhas do Afeganistão.

Mas fica prometido que, se um dia conseguir apanhar algum em estado de conservação aceitável,  o venho aqui partilhar convosco, pode ser?

Pensando melhor, talvez haja melhores caminhos.

Vou encaixilhá-lo e depois vou-o enviar para a Christie’s para que o leiloem, porque pelos vistos isso é que dá muito dinheiro.

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