Natalização Precoce

Novembro 28th, 2013

Estamos quase, quase, quase em Dezembro, mês do Natal.

É possível que, para muita gente que se manteve viva durante os últimos meses de Setembro, Outubro e Novembro, esta minha afirmação não faça muito sentido, já que há Natal por todo lado de há três meses para cá.

Este fenómeno, mais ao menos recente e ainda pouco discutido na praça pública, é hoje em dia objeto de estudo, sendo denominado de natalização precoce.

A natalização precoce, também conhecida pelo termo em latim natalis praecox, é um problema social muito comum em gestores de lojas ou grandes superfícies comerciais, estimando-se que afete 95% destes indivíduos, atualmente.

A maioria dos sociólogos entendem a natalização precoce como o défice do controlo sobre a natalização, interferindo com o bem-estar social ou emocional de quem convive com estas pessoas e/ou frequenta os espaços por elas geridos.

Dependendo do caso, os sintomas de natalização precoce podem ser mais ou menos visíveis.

De uma simples mudança de música ambiente a partir de Setembro, a ter todas as montras cheias de neve e os funcionários vestidos de rena em meados de Outubro, passando por uma mini Lapónia na zona das caixas registadoras no início de Novembro.

Em qualquer dos casos, existe uma antecipação forçada do espírito natalício que esvazia o significado da quadra natalícia por a estender demasiadamente no tempo.

É como se se diluísse um pequeno pacote de açúcar num tanque de 500 litros de água, e esperar que o sabor seja o mesmo que o obtido quando se deita o mesmo conteúdo numa pequena chávena de café, dizem os sociólogos.

Estudos recentes – ainda não divulgados – levantam a hipótese de uma das causas da natalização precoce advir da enorme pressão comercial a que os pacientes estão sujeitos, estando ainda por provar que não seja só um desarranjo hormonal, uma gula insaciável ou um mero fetiche sexual, como sugerem outros estudos.

Como qualquer disfunção ainda pouco estudada, abundam teorias sobre a forma mais eficaz para a combater.

Há quem sugira a leitura diária de um calendário, a aquisição de uma gama alargada de coletâneas de música chill out, reuniões em grupos de apoio aos natalizadores precoces ou ações de formação focadas em técnicas de marketing e vendas alternativas e criativas.

O maior ativista contra a natalização precoce, o padrinho da iniciativa “Natal é em Dezembro, cum caraças!”, o senhor Pai Natal, assinou recentemente um folheto explicativo sobre esta disfunção, onde eloquentemente apela a todos os natalizadores precoces que “deixem um gajo descansar em paz, que já  me chega o preço do feno de rena aditivado não parar de subir e ainda estou a fazer um tratamento muscular doloroso, derivado a um estiramento orçamental de que padeci no ano passado.”

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Filozefia

Novembro 25th, 2013

A filosofia, mãe da ciência moderna, alimenta discussões e origina pensamentos inspiradores há milhares de anos.

Desde os primórdios dos pensadores gregos até aos mais contemporâneos filósofos alemães, sempre se filosofou muito na Velha Europa.

Com o decorrer dos tempos, várias foram as áreas que derivaram da filosofia e inúmeras as linhas de pensamento registadas.

Ainda assim, há pouca documentação sobre algumas correntes de pensamento bem enraizadas em determinados povos, como é o caso da Filozefia, em Portugal.

A Filozefia, é uma derivação da filosofia clássica, por influência do Zé Povinho, sujeito maior do pensamento analítico lusitano.

Esta corrente de pensamento, apesar de variada no conteúdo, tem uma coerência formal digna de registo, pois segue sempre a mesma estrutura de pensamento.

Qualquer pensamento filozéfico abre a discussão com uma observação sagaz sobre um facto, um comentário sobre uma ocorrência mundana alegadamente problemática ou com uma pergunta inquietante.

O raciocínio continua, salientando, ou lamentando, invariavelmente que tal situação só seja possível de verificar em solo luso.

Finda a fase de contextualização, o filózefo sugere finalmente uma solução para o tema registado na primeira análise, de forma contundente.

Tudo isto num tom bastante apaixonado, eivado de substancial ira e indignação, como é apanágio dos filózefos.

Vejamos alguns exemplos de filozefia:

“Há muitos interesses nos incêndios, e enquanto não houver penalizações a sério vão continuar a existir em força. É o país que temos! Por mim, todos os suspeitos eram interrogados dentro de um panelão ao lume, com um caldo de álcool, cebola e pimenta, para lhes arder muito, chorarem baba e ranho e espirrarem tudo cá para fora! “

“Um psiquiatra violou uma paciente grávida, no consultório, e foi considerado inocente pelo tribunal. Isto só mesmo neste paíszinho! Deviam era debruar-lhe os tomates com arame farpado e encher-lhe a uretra de limalha, para aprender!”

“Os nosso politiqueiros mentem todos com quantos dentes têm e ninguém é preso? Só aqui em Portugal! Havia de haver quem lhes arrancasse os dentes, um a um, às fatias fininhas, com uma plaina, até ficarem só com gengivas, e ainda lhes esfregasse com um ouriço cacheiro nas amígdalas! “

Talvez já tenham assistido a algumas conversas filozéficas sem saber exatamente como as classificar.

Pois bem, agora já se sentirão muito mais confortáveis no sofá da vossa cultura geral.

Se quiserem partilhar connosco alguns pensamentos filozéficos, vossos ou de outros filózefos, por favor estejam à vontade.

Será sempre bom acrescentar mais uma pérola ao nosso belo colar do conhecimento.

Zé Povinho Mood´ys

 

 

Filatelia fecal

Novembro 14th, 2013

Desconhecida de grande parte da população, a filatelia fecal é o estudo e o colecionismo dos selos das cuecas e materiais relacionados.

Os selos das cuecas são pequenas marcas na roupa interior, originadas pelo contacto de fezes ou seus gases com os tecidos.

Cada selo da cueca tem uma história e característica única, não havendo um igual ao outro no mundo, o que torna esta forma de colecionismo virtualmente interminável.

Segundo os filatelistas fecais, o que os move para ter este hobby é a vontade de conhecer mais sobre as pessoas que os produziram e o contexto temporal, económico e social em que o fizeram.

Hernâni Poio é o presidente da Fundação Filatelia Fecal, que promove esta forma de colecionismo em Portugal.

Falamos com ele, para perceber melhor este fenómeno.

NP – Olá Hernâni, como começou a sua paixão pelos selos das cuecas?

HP – O meu pai era um filatelista “clássico” e sempre me incentivou a dar continuidade à sua paixão. Nunca liguei muito aos selos, porque me pareciam muito impessoais, mas um dia fiz um selo na cueca e tudo mudou para mim. Apercebi-me ao olhar com atenção para o que tinha acabado de fazer, que tinha ali algo que dizia muito sobre mim, naquela altura da vida.

NP – Guardou essa cueca?

HP – Infelizmente não. Na altura pareceu-me um fascínio que as pessoas teriam dificuldade em perceber, e só depois de atingida a idade adulta senti segurança para assumir publicamente esta minha paixão.

NP – Coleciona só artigos produzidos por si?

HP – Não! Nem pensar nisso! A riqueza da filatelia fecal está precisamente no conhecimento dos outros através dos selos das cuecas, pelo que, quanto mais diversificadas forem as origens dos especimens mais rica é a coleção.

NP – Como são preservados os selos?

HP – Depois de recolhidos são postos a secar – no caso de ainda os obtermos frescos –  e posteriormente é passada uma laca própria, que preserva na perfeição o selo, que encaixilhamos numas pequenas lamelas, para melhor acondicionamento e indexação.

NP – Quantos selos tem neste momento?

HP – Mais de 5000 dos mais variados cantos do globo. É o souvenir que nunca pode faltar nas minhas viagens. Aliás, vou-lhe pedir também que me deixe um antes de ir embora.

NP – Deixarei com todo o gosto. Tem algum que destaque de forma especial na sua vasta coleção?

HP – Sim, de uma senhora alemã cujo nome não posso divulgar. É uma cueca de gola alta, de grandes dimensões, com um rasto aloirado e bem definido, que encontrei num caixote do lixo junto ao parlamento alemão.

NP – Recolhe selos no lixo, portanto?

HP – Sim, há muita gente que ainda receia doar – ou mesmo vender – os seus selos das cuecas, por se sentirem afetadas na sua intimidade.

NP – Existe algum sítio em particular onde recolha com mais frequência?

HP – Sim, sem dúvida. Junto aos parlamentos é onde encontro o maior número de selos com valor. É um sítio onde se faz muita feze e onde mesmo os que não a fazem é porque são uns cagões. Além disso os parlamentares tendem a ocultar todos os indícios da enormidade de fezes que produzem diariamente, deitando-os fora.

NP – Tem algum desejo particular para o futuro da filatelia fecal?

HP – Sim. Gostava muito de viver o dia em que se pudesse utilizar o selo da cueca no correio normal. São tantas as vantagens! Personalização, diversidade, economia, e nem é preciso lamber o selo para ele ficar colado – eu só faço isso pela minha paixão avassaladora pelos selos -, é uma maravilha!

NP – Obrigado pela entrevista e boa sorte para o futuro da filatelia fecal Hernâni.

HP – Obrigado sou eu. Tive muito gosto em conhecer-vos e aproveito para agradecer também ao vosso editor, que me enviou uns selos magníficos, que fez depois de uma atribulada viagem de barco. Um espanto!

selo na cueca

Carta aberta ao Ministro da Saúde

Novembro 7th, 2013

Ex. Sr. Ministro da Saúde,

Escrevo-lhe para o congratular pelo meritório trabalho desenvolvido pelo seu Ministério, ao nível do controlo de custos.

Como cidadã atenta e responsável, que julgo ser, é meu dever alertá-lo, no entanto, para uma situação que poderá contribuir para a obtenção de resultados ainda melhores.

No nosso agregado familiar somos autodidatas nesta coisa da saúde e bem estar, sendo que temos obtido resultados notáveis nas nossas pesquisas caseiras, aplicando técnicas de baixo custo.

Nas linhas abaixo, chamaremos a sua atenção para dois resultados caseiro-laboratoriais de excelência,  que gostaríamos de partilhar com V. Exa.

Somos pais de quatro crianças portadoras de um grau de atividade considerável, que consequentemente as leva a ter vários acidentes domésticos, eventualmente preocupantes e geradores de constantes viagens para o hospital.

Desenvolvemos porém uma técnica infalível, de resultados comprovadíssimos, que aplicamos sempre em casos de emergência médica, e que és espantosamente barata sr. Ministro.

Chamamos a esta técnica: um beijinho.

É espantoso como resulta sempre!

Quer os nossos filhos batam com a cabeça num móvel, trilhem os dedos numa porta ou se esbardalhem no chão, a aplicação atempada de um beijinho no local da lesão, revela resultados surpreendentemente rápidos e eficazes.

Esta técnica é tão eficaz que são agora os próprios petizes, reconhecendo a ação poderosa da mesma, a vir ter connosco pedindo-nos um beijinho, sempre que têm um acidente doloroso.

Temos desenvolvido também outras técnicas, mais ao nível do bem estar, com resultados igualmente bons.

Diria mesmo épicos, se me for permitido, e modéstia à parte.

Neste caso trata-se de mais do que uma técnica, mas todas têm o uso da boca, no seu todo, associadas, devendo porém ser apenas aplicadas a adultos.

Devo dizer, numa pequena inconfidência, que por vezes me finjo mal disposta, cansada ou distraída, só para ser elegível enquanto recetora destas técnicas de bem estar.

Acho que seria de ponderar o reconhecimento oficial destas técnicas, enquanto catalizadoras do bem estar dos portugueses, autorizando-as em Centros de Estética e Massagens, SPAs, bastidores de desfiles de lingerie, praias e piscinas públicas.

Sei os riscos que corremos ao fazer estas experiências em humanos, e por isso mesmo aceitarei se, os membros do seu governo, quiserem pessoalmente aplicar estas técnicas a cavalos, para poderem comprovar in loco os seus resultados.

Os portugueses, só de saberem que vocês estão a aplicar pessoalmente estas técnicas bocais a cavalos, ficarão desde logo com um sorriso na boca, e os animais, seguramente, agradecerão o obséquio.

Grata pela sua atenção, e esperando ter sido útil, despeço-me com a mais elevada estima,

Benjamina Gargarejo

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