Fogo de artifício

Setembro 26th, 2013

Têm visto muito fogo de artifício pelas vossas terras ultimamente?

Eu tenho.

Cada vez mais.

Demasiado.

O que me impressiona é a capacidade que o fogo de artifício tem de distrair as pessoas do essencial, iludindo-as com as suas explosões de cor e o barulho do seu troar.

Quando maior for sua explosão e brilho, mais o povo abre a boca de espanto e bate palmas.

Uns batem mais palmas aos laranjas, outros aos rosas, outros preferem os azuis ou os vermelhos.

Discutem-se o tamanho das bolas, as novas formas luminosas, a aparente durabilidade e consistência de algumas luzes.

E aplaude-se cegamente.

Muito.

Poucos param, porém, para olhar além das luzes e perceber a essência deste fenómeno.

Começa pelo próprio nome, onde a palavra artifício claramente expõe as características de fingimento, artificialidade, astúcia e manha deste espetáculo.

Mas não faz mal, as pessoas gostam de ser enganadas e quanto maior é a envergadura da fraude mais elas aplaudem.

Depois há o custo que está implícito à produção de fogo de artifício.

Poucos se importam em saber que é extremamente caro produzir fogo de artifício.

Paradoxalmente, quanto mais em crise estamos, mais parece que os cidadãos deste território valorizam que se gaste dinheiro nestas coloridas explosões aéreas.

Quem paga isto tudo?

Não interessa.

O povo aplaude e distrai-se.

E o que fica, no fim do espetáculo de rua?

Nada.

Absolutamente nada.

O final aparece com estrondo, com um barulho ensurdecedor, e segue-se um pesado silêncio, o cheiro a queimado e um enorme buraco negro, para onde todos olham, à procura do vazio que lá ficou.

O aplauso cresce em intensidade e o povo vai feliz para casa, com a sensação de ter a alma aquecida por aquele fogo de vista, contando já os dias e preparando as canas, para dentro de pouco tempo os mestres pirotécnicos voltarem a fazê-los cegos de luz e som.

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