Definir tendências

Agosto 27th, 2013

Toda a gente sabe que as leis emanam da Assembleia da República, as encíclicas são escritas pelo Papa, as horas certas são dadas pelo Big Ben e as crianças são produzidas em Paris – distribuídas posteriormente via cegonha – mas… de onde vêm as tendências da moda?

Não existe nenhum comunicado, conferência ou memorando de entendimento que os estilistas subscrevam, não é algo definido pela Natureza, nem há um sorteio anual apresentado pela Serenella Andrade que as defina.

Resta assim a hipótese de haver um grupo de pessoas que se move na bruma dos bastidores da moda, e que, por entre a poeira, sussurre em código as cores Pantone para a próxima estação, ao ouvido dos criadores.

Estas personagens, conhecidas no mundo da moda por “tendenciosos”, encobrem a sua real identidade camuflando-se nas colunas dos edifícios ou dos aparelhos de som, facto que levou ao nascimento da expressão “colunista”, entretanto esvaziada de honradez pelo uso abusivo da mesma.

Os “tendenciosos” operam segundo as instruções de personagens ainda mais misteriosas do que eles mesmos, um grupo de peritos chamado “tendinitos”, que comunicam entre si via águia-peregrina-correio ou fumo de essência de pasquim, desde o primeiro desfile conhecido da História, onde as modelos ainda exibiam as vestes de pêlo de mamute enquanto eram arrastadas pelos cabelos.

Nessa altura o espectro de cores e padrões era mais reduzido, mas, ainda assim, eram já os “tendinitos” – transmitindo a sua mensagem através dos “tendenciosos” para as costureiras da altura – quem definia o tempo de exposição dos pêlos ao sol e as marcas de dentição apropriadas para elaborar os padrões.

Ainda não se sabe como se pode influenciar os “tendinitos” nas suas escolhas, mas consta que são muito sensíveis à oferenda de bacorinhos com tutus e esquilos cor de rosa, que devem ser deixados à porta do cabaret mais próximo, com a sugestão de novas tendências escrita em papiro de sequóia da China, enrolado de forma a caber – sem danificar – no esfincter posterior dos oferendados.

abstract-multicolor-splashes-1920x1200

 

Terminologia militar

Agosto 14th, 2013

Ainda há quem discuta se as mulheres devem ou não estar no exército.

Acho que não há discussão possível – devem estar -, mas admito que há coisas que devem ser alteradas.

Há pouco, ouvi alguém referir-se a uma “sargento” como “sargenta”.

Nem todos saberão qual a correta forma semântica e por isso temos que admitir que este será um erro comum.

Ora, este é um termo demasiadamente próximo, foneticamente, de “sarjeta”, o que é claramente depreciativo para o estatuto destas militares.

Quando dita de forma muito rápida, a frase “Fulana de Tal vai ser promovida a sargenta!” poderá levantar imediatamente a questão “E até aqui era o quê, a Fulana de Tal? Latrina?”, para o mais desatento dos transeuntes.

Acho que os nossos generais se deviam debruçar sobre esta temática, pelo menos para criar algum burburinho na messe, que é um sítio normalmente muito pacato.

Já que falamos de messe, penso que poderiam também estudar a mudança do nome desse sítio, porque há muitos que lá vão ter com um papelinho e caneta à procura de um valioso autógrafo, e vêm de lá muito desiludidos porque não era daquilo que estavam à espera.

Só para terminar, se querem chamar “parada militar” a um evento, parem de marchar de um lado para o outro e fiquem mesmo parados, porque com esse movimento todo confundem os mais jovens.bilde

Sereia chantrona

Agosto 7th, 2013

Muitas vezes dou por mim a olhar o mar à procura de sereias.

Esse ser mítico com dotes encantatórios povoa o imaginário desde muito cedo, sempre com uma imagem de beleza, mistério e sedução associada.

E isto porque, deliberadamente, os escritores de contos e fábulas nos omitem que existe outro tipo de sereia.

A sereia chantrona.

Estas representantes menos glamourosas da família mezzohomo sapiens dão também nas vistas, mas no exato inverso das suas congéneres.

São volumosas figuras de metade superior semelhante à Simara e metade inferior de uma orca.

Revestidas a opacos pêlos, ao invés de brilhantes escamas, as sereias chantronas têm também a particularidade de vestir coloridas e apertadas vestes de licra.

Os seus dotes vocais estão ao nível de um cantor de karaoke tailandês e fumam abundantemente, para disfarçar o cheiro a suor.

Muitos foram os navegantes que, atraídos pelo som de uma gravação de melodias interpretadas por belas sereias, entraram depois de uma noite de copos em obscuras grutas marítimas, acordando no dia seguinte ao lado de sereias chantronas e morrendo imediatamente de vergonha ou de ataque de coração.

Como vêm, nem tudo é maravilhoso na fantasia sereiesca e temos que ter muito cuidado com quem deixamos entrar no nosso sonho, sob pena de o deixarmos descambar para algo “série b”, que afugenta a audiência.4474092

T-shirt desportiva de cerimónia

Agosto 1st, 2013

É engraçado ver como as pessoas se aperaltam de forma especial quando vão a sítios ou cerimónias que fogem das suas rotinas habituais.

Tendencialmente vestimos os nossos melhores trapinhos quando vamos a algum lado a que não vamos muitas vezes ou participamos em algum evento especial, engrandecendo o momento.

É também aqui que nos revelamos sociologicamente, expondo aquilo que, para nós, é valioso, importante ou simbólico.

De entre as peças ou sinais que mais saltam à vista como clichés identificativos do que estou a dizer estão os sapatinhos de ir à missa, os vestidos de noite, a brilhantina no cabelo, a camisinha branca, a maquilhagem excessiva ou as jóias em abundância.

Mas de todas as peças deste género, a que mais me desconcerta e causa tremeliques nas células sorrisais é a t-shirt do clube desportivo.

De futebol, basquete ou rugby, acho fabuloso que alguém considere sinónimo de aperaltar-se vestir uma peça de vestuário destas.

Se este é o traje formal, o informal é o quê?

Um colete de cartão?

Uma toga de sarapilheira?

A sério, fico muito confuso.

Nem sei mais o que vos diga.

Vou ver um bocadinho de uma reposição de um qualquer Big Brother, a ver se me epifaniza.

Destination-Wedding-Riviera-Maya-Now_KN_0100