Leôncio, o chulo em greve de fome

Junho 11th, 2012

Leôncio van Helsing é um chulo.

Aquilo que poderia ser uma frase ofensiva para qualquer homem, na verdade é uma constatação e um orgulho para ele.

Leôncio sempre olhou o pai, Ludwig van Helsing – dono da maior cadeia bordeleira holandesa, a Cum Inn -, como um modelo a seguir.

Tanto ele como o irmão – Florindo – sempre quiseram seguir as pisadas do seu ídolo.

No seu fim de vida, Ludwig caiu nas malhas do jogo ilegal e foi assassinado após as suas dívidas chegarem a um ponto não resgatável pelo Banco Central Europeu, tendo Leôncio e Florindo sido obrigados a fugir para a terra de sua mãe, Carminda, portuguesa da região de Setúbal.

Tiveram então que se adaptar à nova realidade, a um país estranho, com leis diferentes, e à necessidade de trabalhar para sobreviver.

O único legado que o seu pai lhes deixou foi a sua enorme experiência de vida e o savoir-faire na arte da chulice.

O grande problema de consciência de Leôncio começa aqui.

A prostituição é proibida em Portugal, o que implica exercer a sua profissão na clandestinidade.

Leôncio nunca foi dado a patranhas, sempre foi extremamente correto, leal e defensor da transparência nos negócios.

Florindo sempre foi mais dado a esquemas, ao recurso ao engano, ao desvio e à aldrabice.

Os seus caminhos separaram-se aqui.

Leôncio assumiu que a clandestinidade ainda tinha alguma coisa de nobre e que seria a melhor forma de dignificar a memória do pai, enquanto Florindo descambou e lançou-se numa carreira política no sistema partidário português.

Há cinco dias atrás, passados dez anos sobre o início da sua carreira em Portugal, Leôncio começou uma greve de fome, para salvar o seu negócio da penúria.

Encontramo-lo no Cais do Sodré, a beber umas minis.

– Boa tarde senhor Leôncio. Começou há cinco dias uma greve de fome. Mas continua a beber minis?

– Meu caro amigo, a greve é de fome, não é de sede.

– Isso não lhe faz mal? Não teme pela sua saúde?

– Nem pensar nisso. Primeiro: sempre que bebo faço um brinde á minha saúde. Segundo: a cerveja tem lúpulo e cevada, que são dois alimentos bestiais. Terceiro: a cerveja faz-me esquecer que tenho fome. É uma alegria! Quando estou mais à rasca bebo um vinhito, para ir buscar proteína à uva, uma amarguinha por causa dos hidratos de carbono da amêndoa, ou um whisky… de malte.

– Está a fazer esta greve para chamar a atenção? É a crise a bater-lhe à porta?

– Não, não é a crise. Esta é de facto uma medida que visa salvar o meu negócio, mas não tem nada a ver com a crise. Aliás, nunca o negócio me correu tão bem! Estou a encher – perdoe-me a expressão – o cú de dinheiro.

– Salvo seja.

– Não, não! Efetivamente. Não posso pôr o dinheiro debaixo do colchão porque nunca se sabe quem vai lá parar, neste negócio. Nos bancos também não acredito, de maneiras que tenho mesmo que o meter – perdoe-me a expressão – no cú, não é? É o sítio mais seguro, porque aqui ninguém mexe sem eu deixar.

– E isso não o deixa muito cheio?

– Não, devido ao tipo de alimentos que normalmente ingiro, que são de muito fácil digestão. Só tenho que ter o cuidado de enrolar bem as notas em papel, para não manchar.

– Sendo assim, é uma boa solução, sim senhor. Mas se não é por causa da crise, se o negócio está a correr tão bem, o que o motiva a fazer uma greve de fome? É um apelo à legalização do seu negócio?

– Não tenho nenhum interesse em legalizar o meu negócio meu amigo! Assim não pago impostos e ninguém sabe o que faço ou deixo de fazer. Tenho ainda a vantagem de que, se alguma das minhas meninas desaparece, ninguém me chateia a cabeça.

– Costumam desaparecer muitas?

– Pois aí é que está o meu problema! O meu negócio vai mal porque as meninas me desaparecem.

– São raptadas? Fogem para outros países? Ou é uma guerra entre chulos, pelas melhores meninas?

. Nada disso meu caro. Muito pior do que isso. O meu problema é que me foi diagnosticada antropofagia.

– Ui! Isso é que é mau, caramba! Vai-me perdoar, mas isso é exatamente o quê?

– Como gajas. Não consigo resistir a afiambrar as meninas.

– Salvo seja.

– Não, não! Efetivamente. Tenho uma máquina de fatiar muito boa e aprecio comê-las em sandes com pão de cereais e molho de mostarda. O senhor se prova um fiambrino de mulata não quer outra coisa, ouça o que eu lhe digo! Os restos congelo e aproveito para as fazer em carpaccio, que é uma maravilha.

– Então a greve de fome…

– É para evitar comê-las, porque estava-me a matar o negócio.

– O senhor então é… pois… mas isso eu não posso noticiar… e…

– Deixe lá isso e beba uma mini. Ou quinze! Com três litrinhos no buxo de certeza que já nem se lembra disso. E se acompanhar com uns tremoços ao alho vai ver que vai ficar mais saboroso e tudo.

– Como?

– Não ligue. Já são alucinações faminógénicas. O senhor comigo está seguro porque eu só posso comer chicha da boa, por causa do colesterol. Se comia um badocha entupia-me já as veias todas!


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