Ficou ferro a ferro, ganhou a Espanha

Junho 28th, 2012

120 minutos depois do apito inicial estava zero a zero, Portugal e Espanha estavam empatados.

Poucos minutos depois e nove penaltis volvidos, estava ferro a ferro, ganhava a Espanha.

Como é possível?

Simples: a nossa bola ao ferro ressaltou para fora, a deles ressaltou para dentro.

E disto se faz o futebol.

Desta incerteza, dos pormenores, da fina linha que separa o inferno da glória.

E é por isso que tanto gosto deste desporto, em que não há vencedores antecipados e onde todos têm hipóteses de sair vencedores.

A desilusão fica, logicamente, mas fica também a certeza de que um dia o ressalto vai sobrar para nós, que a bola há-de um dia bater no ferro e rodar para dentro.

Estamos a treinar bem – só neste campeonato foram 7 bolas ao ferro! -, agora é só começar a dar-lhe um bocadinho de efeito, para elas rodarem para o sítio certo.

E lá estaremos então, prontinhos para comemorar efusivamente quando esse dia chegar.

No entretanto, há que gerir bem esta nossa veia eufórico-depressiva que nos leva a tantos extremos emocionais, e nunca esquecer que isto, afinal, é só um jogo.

 

 

Michelin fashion

Junho 21st, 2012

Acho piada às pessoas que se enchouriçam!

Pessoas que se inspiram no Bibendum quando compram roupa nova ou quando vão sacar um trapinho bonito ao armário.

Não sei se se tratará de um estado de negação ou se acham que enchouriçadas ficam mais apetitosas, mas eu não consigo compreender o que leva alguém a vestir roupa três tamanhos abaixo do ideal… para os filhos.

Haverá algo mais perturbador do que ver uma imensa massa corporal a esticar umas calças de ganga ou de lycra a um ponto em que se consegue ver as moléculas a ficar vermelhas e a gritar “vou estourar!… vou estourar!”?

São estas pessoas que depois originam a escassez de números normais nos saldos, sobrando os XXL e outros tamanhos adequados para pessoas de avultada xixez.

Se fosse visivelmente confortável, tudo bem.

Só o aspeto não pode causar grandes danos.

Mas o que vemos é aquelas pessoas de corpo integralmente espartilhado, a andar tipo zombies, com as pernas e os braços hirtos, tolhidos de movimentos e evitando tudo o que sejam bancos, sofás ou cadeiras, não vá o diabo rompê-las!

Ninguém deve ter vergonha do corpo que tem.

Nem todos podemos ser Adónis ou Afrodites.

Podemos é tratar a nossa persona com respeito e não fazer do nosso corpo uma máquina de testes de resistência têxtil, nem uma bomba de retalhos em potência.

Até porque tudo tem um limite, e neste caso o limite é quando verificamos que a única forma de introduzir algo entre um corpo e a roupa que o envolve é recorrendo à nanotecnologia.

Eu não sei como é com vocês, mas eu fico sempre com medo quando vejo alguém vestido assim.

Sinto-me como um participante daquele tipo de jogo em que o balão passa de pessoa para pessoa e pode explodir a qualquer momento.

Fico nervoso.

Nunca se sabe quando vamos ser vítimas de um overstretching e ficar com um estilhaço de corsário entalado na fossa nasal.

Leôncio, o chulo em greve de fome

Junho 11th, 2012

Leôncio van Helsing é um chulo.

Aquilo que poderia ser uma frase ofensiva para qualquer homem, na verdade é uma constatação e um orgulho para ele.

Leôncio sempre olhou o pai, Ludwig van Helsing – dono da maior cadeia bordeleira holandesa, a Cum Inn -, como um modelo a seguir.

Tanto ele como o irmão – Florindo – sempre quiseram seguir as pisadas do seu ídolo.

No seu fim de vida, Ludwig caiu nas malhas do jogo ilegal e foi assassinado após as suas dívidas chegarem a um ponto não resgatável pelo Banco Central Europeu, tendo Leôncio e Florindo sido obrigados a fugir para a terra de sua mãe, Carminda, portuguesa da região de Setúbal.

Tiveram então que se adaptar à nova realidade, a um país estranho, com leis diferentes, e à necessidade de trabalhar para sobreviver.

O único legado que o seu pai lhes deixou foi a sua enorme experiência de vida e o savoir-faire na arte da chulice.

O grande problema de consciência de Leôncio começa aqui.

A prostituição é proibida em Portugal, o que implica exercer a sua profissão na clandestinidade.

Leôncio nunca foi dado a patranhas, sempre foi extremamente correto, leal e defensor da transparência nos negócios.

Florindo sempre foi mais dado a esquemas, ao recurso ao engano, ao desvio e à aldrabice.

Os seus caminhos separaram-se aqui.

Leôncio assumiu que a clandestinidade ainda tinha alguma coisa de nobre e que seria a melhor forma de dignificar a memória do pai, enquanto Florindo descambou e lançou-se numa carreira política no sistema partidário português.

Há cinco dias atrás, passados dez anos sobre o início da sua carreira em Portugal, Leôncio começou uma greve de fome, para salvar o seu negócio da penúria.

Encontramo-lo no Cais do Sodré, a beber umas minis.

– Boa tarde senhor Leôncio. Começou há cinco dias uma greve de fome. Mas continua a beber minis?

– Meu caro amigo, a greve é de fome, não é de sede.

– Isso não lhe faz mal? Não teme pela sua saúde?

– Nem pensar nisso. Primeiro: sempre que bebo faço um brinde á minha saúde. Segundo: a cerveja tem lúpulo e cevada, que são dois alimentos bestiais. Terceiro: a cerveja faz-me esquecer que tenho fome. É uma alegria! Quando estou mais à rasca bebo um vinhito, para ir buscar proteína à uva, uma amarguinha por causa dos hidratos de carbono da amêndoa, ou um whisky… de malte.

– Está a fazer esta greve para chamar a atenção? É a crise a bater-lhe à porta?

– Não, não é a crise. Esta é de facto uma medida que visa salvar o meu negócio, mas não tem nada a ver com a crise. Aliás, nunca o negócio me correu tão bem! Estou a encher – perdoe-me a expressão – o cú de dinheiro.

– Salvo seja.

– Não, não! Efetivamente. Não posso pôr o dinheiro debaixo do colchão porque nunca se sabe quem vai lá parar, neste negócio. Nos bancos também não acredito, de maneiras que tenho mesmo que o meter – perdoe-me a expressão – no cú, não é? É o sítio mais seguro, porque aqui ninguém mexe sem eu deixar.

– E isso não o deixa muito cheio?

– Não, devido ao tipo de alimentos que normalmente ingiro, que são de muito fácil digestão. Só tenho que ter o cuidado de enrolar bem as notas em papel, para não manchar.

– Sendo assim, é uma boa solução, sim senhor. Mas se não é por causa da crise, se o negócio está a correr tão bem, o que o motiva a fazer uma greve de fome? É um apelo à legalização do seu negócio?

– Não tenho nenhum interesse em legalizar o meu negócio meu amigo! Assim não pago impostos e ninguém sabe o que faço ou deixo de fazer. Tenho ainda a vantagem de que, se alguma das minhas meninas desaparece, ninguém me chateia a cabeça.

– Costumam desaparecer muitas?

– Pois aí é que está o meu problema! O meu negócio vai mal porque as meninas me desaparecem.

– São raptadas? Fogem para outros países? Ou é uma guerra entre chulos, pelas melhores meninas?

. Nada disso meu caro. Muito pior do que isso. O meu problema é que me foi diagnosticada antropofagia.

– Ui! Isso é que é mau, caramba! Vai-me perdoar, mas isso é exatamente o quê?

– Como gajas. Não consigo resistir a afiambrar as meninas.

– Salvo seja.

– Não, não! Efetivamente. Tenho uma máquina de fatiar muito boa e aprecio comê-las em sandes com pão de cereais e molho de mostarda. O senhor se prova um fiambrino de mulata não quer outra coisa, ouça o que eu lhe digo! Os restos congelo e aproveito para as fazer em carpaccio, que é uma maravilha.

– Então a greve de fome…

– É para evitar comê-las, porque estava-me a matar o negócio.

– O senhor então é… pois… mas isso eu não posso noticiar… e…

– Deixe lá isso e beba uma mini. Ou quinze! Com três litrinhos no buxo de certeza que já nem se lembra disso. E se acompanhar com uns tremoços ao alho vai ver que vai ficar mais saboroso e tudo.

– Como?

– Não ligue. Já são alucinações faminógénicas. O senhor comigo está seguro porque eu só posso comer chicha da boa, por causa do colesterol. Se comia um badocha entupia-me já as veias todas!

A Igreja e a crise

Junho 5th, 2012

Bom dia senhores ouvintes.

Li há pouco que a Igreja anda preocupada com o acentuado decréscimo de esmolas que os seus fiéis gentilmente depositam nos seus cofres.

As estatísticas são, efetivamente, preocupantes e por isso não posso deixar de dar o meu contributo para que a Igreja se reinvente, na indispensável captação de divisas.

Na minha perspetiva, o que a Igreja precisa fazer é estudar o que de bom se faz no marketing das várias áreas de negócio e adaptar essas formas de atuar à sua realidade.

Existem santuários com uma capacidade de atração invulgar no nosso País, como sejam Fátima, Sameiro, Bom Jesus ou Lamego.

Pois bem, porque não aproveitar essa exposição pública para fazer receita, licenciando o naming dos santuários.

Não me parece que as grandes empresas nacionais deixassem escapar a possibilidade de ver o seu nome associado a uma concentração de mais de 300.000 pessoas, um número muito mais expressivo do que qualquer festival de verão.

Santuário “Azeite Gallo” de Fátima é um bom exemplo para ilustrar esta estratégia.

Verifique-se a força de marketing e o valor de mercado que uma estratégia destas poderia gerar para a Igreja, que transforma a receita das esmolas em meras pinguinhas avulsas de água benta.

Se até o Barcelona já cedeu à tentação de deixar que as suas camisolas ostentassem nomes de patrocinadores, a Igreja também deveria estudar essa hipótese.

Será difícil imaginar o poder de comunicação que representaria conseguir inscrever nas costas de uma batina de um padre a palavra “Sogrape”, na altura da consagração do vinho.

A estratégia pingodocesca também pode trazer muito valor à Igreja, fazendo-se campanhas em que quem contribuir com 50 cêntimos ou mais durante o ofertório tem direito ao dobro das hóstias do que os crentes menos contributivos.

Pode-se ainda acumular esta promoção com um cartão de fidelidade, em que à 10ª contribuição acima dos 14 cêntimos de ganha uma hóstia extra.

Por último, mas não menos rentável, a criação de uma coleção de action figures de padres ou religiosas com maior visibilidade como o Papa, a irmã Lúcia, o Padre Borga, a Madre Teresa de Calcutá, o Padre Marcelo Rossi ou o Padre Frederico – o vilão – podia ser uma excelente estratégia de incremento de receitas.

Se os problemas forem só económico-financeiros, como podem ver, não faltam ideias para os resolver.

Quanto à crise de valores… é melhor perguntarem aos senhores da Bolsa.