Vernáculo Nortenho a Património Imaterial da Humanidade

Abril 2nd, 2012

O Fado foi, no final do último ano, reconhecido como sendo Património Imaterial da Humanidade.

Todos os portugueses se devem sentir orgulhos por este reconhecimento e é importante que saibamos capitalizá-lo de forma eficaz, mas ao mesmo tempo sustentável.

É importante também que nos apercebamos da real importância de vermos reconhecido internacionalmente aquilo que é tão genuinamente nosso.

Os alentejanos já se aperceberam disso e não foram de preguiças, preparando já a candidatura do seu Cante.

É altura de, mais a norte, surgir também uma candidatura forte a Património Imaterial da Humanidade.

Pela sua pureza, enraizamento e marca identificativa de um povo, devemos começar a preparar com afinco a candidatura do Vernáculo Nortenho!

Divulguemos este linguajar ao mundo, orgulhosos do nosso património, da forma que estas gentes têm para se exprimir, que as torna tão singulares.

Das vendedeiras do Bolhão às sargaceiras da Apúlia, passando pelos pescadores de Viana do Castelo ou dos pastores em Trás-os-Montes, mudando aqui e ali o sotaque e o cantar, existem elementos transversais à forma como se fala “cá em cima”, com um espontaneidade que não se encontra em mais lado nenhum.

Temos que divulgar e dignificar esta forma de falar, editar diálogos em disco, transcrever frases ditas entre buzinas de carros, gravar discussões e emiti-las on-line, levar os turistas aos sítios onde se fala assim e explicar o real conteúdo do que ali se diz.

Imaginem um autocarro de turistas a parar no Bolhão, propositadamente para assistir a diálogos  – devidamente legendados em tempo real -, deste género:

– Oube lá! Essas sardinhas num soum minhas?

– Fuoood@$$e! Tás a falar cum queim car@!#o? Aichas c’ando aqui a roubar sardinhas ó o car@!#o?

– Se calhar sou ceguinha noum? Num te vi ali a falar co pan€!€iro do teu home e a bires aqui pegar na saquinha, noum?

– Bai-te incher de muoscas, oube lá. Tá maluquinha ó o car@!#o! Fu%&asse! P*+a que pareu! Passa-te ó car@!#o auntes que te fu%&a o focinho.

– Tenho medo de ti não, ó badalhoca? Dá cá essa m€§da antes que lebes quatro p*+as!

– Tu e mais quantas? Bai fazer br%ches a cabalos, bai-te ganda f%&er! Inda num tinhas pintelhos na c%na e já eu lebeba baldes à cabeça, tás a oubir ó morc%na do car@!#o?

– Era baldes na cabeça e p|$$as na buoca noum sua p*+a de m€§da? Dá cá o filho da p*+a do saco, já disse ,car@!#o!

– Porque que é que o car@!#o do saco habia de ser teu, diz lá?

– É meu porque tem um cordel azul nas badanas, num teim?

– Tem um cordel tem! E esta m€§da é azul por acaso, ó p%rca do car@!#o? Esta m€§da é ruoxo, fu%&asse!

– Eia, fu%&asse! Desculpa! Num foi por mal, mas é um saco igual ao meu car@!#o, e ao longe essa m€§da parecia um cordel azul. Num biste aí o meu saco noum?

– Quero que se fu%&a lá o teu saco, ó o car@!#o. Sai lá daí que beim aí fregueses, baita f%&er.

– Badalhoca.

– A tua mãe.

É este património linguístico que a humanidade não pode dar-se ao luxo de perder.

Com tantos sinais que, por pudor, ainda nos vemos obrigados a utilizar nas transcrições, está-se a perder a genuinidade e fluidez, está-se a perder a riqueza.

Por isso é que não podemos ficar parados e devemos agir para preservar e dignificar o vernáculo nortenho, lutando para o seu reconhecimento e valorização ao nível mundial, car@!#o!

 

 

 


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