Arte em abóboras

Outubro 30th, 2011

O Halloween é supostamente uma festa assustadora, em que as pessoas abrem a boca para gritar, à medida que vão sendo assustadas.

Não ligo muito a esta data, e acho até que é uma americanice pegada, que nada tem a ver connosco, e o que acho verdadeiramente assustador é que nos deixemos contagiar desta forma por estas tradições importadas.

Desta vez, no entanto, não pude deixar de abrir a boca – mas de espanto – perante as verdadeiras obras de arte que Ray Villafane faz, usando abóboras como matéria prima.

São esculturas absolutamente surpreendentes, de uma qualidade assustadora, mesmo para a época festiva em questão.

Visitando o seu site, descobri que este artista também tem obras notáveis esculpindo areia e que também faz brinquedos.

Um artista de mão cheia, dir-se-ia usando a gíria popular, e por isso não posso deixar de partilhar convosco uma mão cheia de fotografias do seu trabalho e mais uma – à Paulo Futre, só porque me apeteceu.

Encontrarão muito mais no site, que vale bem a pena visitar.


Comunicação com ruído

Outubro 24th, 2011

Pim-Pom.

“Sr. Albano chamado à caixa central. Sr. Albano chamado á caixa ceentral!”

Pim-Pom.

Digam-me uma coisa.

Há algum microfone com clipe nasal incorporado, para venda exclusiva a recepcionistas de grandes superfícies?

Parece que andaram todos num curso especial onde a primeira coisa que lhes ensinam é a enrolar o cabo do rato e enfiá-lo narina acima.

Também posso estar a ser injusto e este defeito comunicacional venha do local onde estes profissionais são colocados: sítios com o ar condicionado permanentemente ligado a 10ºC que os mantêm sempre constipados.

Mesmo tratando-se de um caso assim… ao menos arranjem um desentupidor nasal para estes senhores, por favor!

Isso e um curso de inglês para pilotos de avião.

Alguém percebe o que eles dizem?

Eu fico sempre muito nervoso, porque supostamente, na sua formação, têm que ler uma catrefada de livros técnicos sobre aeronáutica em inglês e depois, quando têm que dizer uma simples frase ao microfone, parece que estão a falar em directo de um restaurante de sílabas.

Como é que se pode ter confiança nesses senhores?

Esta maneira de falar inglês não abona nada para a tranquilidade do passageiro.

Será que perceberam o que estava escrito no manual de instruções do aparelho? – pensará o passageiro enquanto procura as portas de emergência.

Estamos a falar de profissionais muito bem remunerados, não se compreende que se façam entender pior que um leiloeiro de meias e lençóis em cima de uma carrinha-palco numa feira!

Vou-vos dar uma dica, caros profissionais que têm que comunicar via rádio ou microfone: rádio táxi.

Percebe-se sempre muito bem o que dizem e são excelentes conversadores, principalmente a partir das cinco e meia da manhã.

Pensem nisso.

Sandeman

Outubro 20th, 2011

É nas alturas de crise, como esta, que as pessoas sentem mais necessidade de ter fé em algo que os ajude.

Para uns a resposta está na religião, para outros nos super heróis.

Dirá o mais distraído dos leitores, que na religião ainda se percebe, porque há relatos de algumas aparições cá por perto, mas de super heróis, cá pelo burgo, não há registo.

Nada mais falso.

O que nós temos é um deficit de atenção para com os nossos valorosos super heróis.

Acho até que este é um ponto fundamental, que nos define civilizacionalmente.

Os americanos têm muitos super heróis, desde o Super-Homem ao Batman, passando pelo Capitão América e o Incrível Hulk (este último já com filial no Futebol Clube do Porto), e isso contribui de sobremaneira para se afirmarem como uma super potência mundial.

Nós, porém, andamos distraídos e nem reparamos que já desde 1790 temos um super herói que nos acompanha e socorre quando as coisas não vão tão bem, e por isso estamos na cauda da Europa e isto não anda a cheirar lá muito bem.

Falo, obviamente, de Sandeman.

Este herói misterioso, sombrio, de capa e chapéu, aparece altaneiro sobre as montanhas, sempre atento e pronto a socorrer o mais infortunado cidadão.

O seu nome tem origem na forma como se desembaraça dos problemas, enfiando-lhes uma sandes de courato – que carrega por baixo da sua capa –  pela goela abaixo, sufocando-os.

O antídoto para esta sandes é um líquido especial, uma poção de chamamento comummente conhecida por Vinho do Porto, que quem recorrer a Sandeman deve também ingerir, como sinal do seu pedido de ajuda e respeito.

Muitos são os portugueses que recorrem a Sandeman, nas tascas e cafés nacionais, sem terem exacta noção do que estão a fazer.

A discrição deste super herói leva a que muitos já não se lembrem dos seus reais poderes e da sua forma de actuação, tendo somente a certeza de que ingerindo Vinho do Porto os seus problemas são esquecidos.

Mesmo esquecido por muitos, Sandeman nunca abandonará quem dele precisa e até em supermercados se pode, hoje em dia, aceder à sua poção de chamamento.

Por isso caro leitor, não facilite e tenha sempre à mão uma garrafa deste precioso líquido, não vá um dia também precisar dele.

Lembre-se que Sandeman está atento, e a sua acção sempre à distância de um gole – ou vários.

Se internacionalmente o nosso herói é reconhecido – até músicas lhe dedicam, como esta das Puppini Sisters, que vos deixo abaixo – está bem na hora de nós próprios lhe darmos o devido valor e saudá-lo efusivamente.

Viva o Sandeman!

Viva!

 

Político profissional

Outubro 18th, 2011

Uma carreira política consistente não é fruto do acaso.

É algo construído, trabalhoso, e com muitas fases, que passam despercebidas à maioria da população.

Muitos dos futuros políticos estão já fadados a seguir a carreira, por características vertidas para o seu ADN pelos seus progenitores, mas mesmo esses, tal como os que não têm essa herança, começam a dar nas vistas nas escolinhas.

É aí que dão os primeiros pontapés, nas listas organizadas com amigos, que conseguem os primeiros resultados visíveis do seu talento político, entre canetas e bolas de plástico oferecidas.

O recrutamento é feito nessa altura pelos grandes clubes políticos, que aliciam os melhores ou mais promissores a integrarem as suas camadas jovens.

A partir daí são moldados de acordo com as tácticas utilizadas por cada clube, dando simultaneamente apoio, qual claque organizada, aos seus ídolos, os seniores.

Observando-os, aprendem e evoluem tecnicamente, subindo de escalão ano após ano, até serem finalmente inscritos nas listas da assembleia principal, onde se jogam os grandes clássicos e se revelam os mais capazes.

A maioria não passará do anonimato, jogando sempre para o seu capitão ou melhor goleador.

Essas vedetas para quem o jogo é canalizado contam-se pelos dedos.

Não está ao alcance de qualquer um, mas é esse o sonho de qualquer político profissional: liderar uma equipa e ganhar um campeonato nacional de votos.

O nosso campeonato é pequeno, quando comparado com outros no estrangeiro, por isso não é de admirar que muitos sejam tentados a enveredar por uma carreira europeia, onde podem ganhar muito mais.

O flagelo de quem faz carreira política são as lesões.

Lesões de credibilidade, fracturas de ministros ou escutas nas antenóides são das mais temidas.

São normalmente lesões curadas à base de abafadinhos ou fugas do território, na esperança de poder voltar rapidamente ao activo.

Após atingirem o auge, se conseguirem passar incólumes por todas estas provações, são relegados para a reforma – ou para várias reformas para ser mais exacto – ocupando discretamente, ou nem por isso, o último lugar que esta carreira tem reservada para eles, o de comentador da vida política activa, sempre mantendo a seriedade, honestidade intelectual e imparcialidade características destes profissionais.

É uma carreira difícil, só para quem tem estômago forte, bom golpe de rins e vergonha diminuta, e por isso só alguns brilhantes especimens conseguem ser bem sucedidos.

Arroz de miúdos

Outubro 13th, 2011

Ontem puseram-me em cima da mesa um arrozinho de miúdos.

Devo-vos dizer que foi muito bom, apesar de ter sido difícil acabar com aquela brincadeira.

É todo um festim que se espalha livremente pelo prato fora, numa espécie de jogo do gato e do rato que culmina em foguetins de sabor apurado, num ciclo que dá vontade de nunca quebrar.

Ainda por cima calhou-me um daqueles bem malandrinhos, que não pára quieto, o que cria dificuldades acrescidas a toda a operação degustativa.

Só lhe faltava mesmo pôr a língua de fora e cantar “nããão meee apaaanhas! nhé nhé nhé nhé nhé nhé” enquanto fugia a esconder-se por debaixo do garfo.

Esta malandrice, dá-me, porém, ainda mais gozo no momento da ingestão do dito arroz.

Pelo prazer que emana das palavras acima já depreenderam com certeza que sou aquilo a que se pode chamar um “pedourmet”, ou seja, um pedófilo gourmet, alguém que gosta de comer miúdos no seu arroz.

Se for com sangue, melhor ainda.

Sei que há muita gente que só de pensar neste tipo de pratos tolhe imediatamente a boca, transformando-a num pequeno esfincter tolhido, e franze o nariz até chegar com ele ao centro dos olhos, mas que querem que vos faça?

Se estivéssemos a falar de algo servido por um gigante que tivesse surpreendido miudagem humana na sua despensa, à procura de um saco de feijões mágicos , e que os tivesse castigado atirando-os para a panela onde cozinhava arroz, aí sim, ainda podia ter uma pitada de sentimento de culpa.

Mas assim não.

Assim saí do restaurante muito consoladinho!

De gigante, no final desta estória, além do prazer só mesmo a barriga e o sono.

 

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