Desabafo de um copinho de leite

Setembro 12th, 2011

O meu nome é Barnabé e sou um copinho de leite.

Uma das minhas maiores desilusões é verificar que a designação “copinho de leite” é hoje em dia aplicada a pessoas de pouca fibra, medrosas, tímidas, fraquinhas ou cobardes.

As pessoas estão tão longe de saber o que é preciso sofrer para ser um copinho de leite!

Mesmo os humanos que são considerados mais fortes e valentes, como os comandos militares por exemplo, não são postos perante condições tão adversas e extremas como nós, os copinhos de leite.

A nossa formação começa logo com uma exposição prolongada a temperaturas elevadíssimas, acima dos 1250 graus centígrados.

Somos metidos dentro de enormes fornos, rodados e soprados permanentemente até estarmos bem formados.

Depois somos atirados para máquinas escuras onde nos atiram produtos químicos e água a alta pressão, para nos testar a resistência e a durabilidade.

A seguir somos encaixotados e enviados para onde sejamos necessários, muito apertados e fechados, viajando sem poder ser sair do sítio e desconhecendo o nosso destino.

Eu vim da China, por exemplo, e quando abriram a caixa, ao ver um senhor chinês a desembrulhar-me, fiquei todo contente, pensando que não estaria longe de casa.

Mas o roçar de um buço proeminente de uma senhora com um lenço negro na cabeça, poucos dias depois, mostrou-me o quão longe estou dos meus.

As pessoas não imaginam isto, mas nós estamos preparados para levar com água, sumos, cerveja, vinho e até whisky ou aguardente, somos fortes e resistentes e não é qualquer tombinho numa mesa que nos parte á primeira.

O leite é um bem necessário à pessoas e a nossa nobre missão de o levar à sua boca enche-nos de orgulho.

É por isso que não nos poupamos a nenhum sacrifício, e seria justo que a nossa tenacidade tivesse outro tipo de reconhecimento.

A nossa vida difícil não acaba aqui.

Ao longo da vida continuamos expostos aos mais diversos perigos, às bordas das mesas, às cadeiras de bebé, às sevícias da sempre tenebrosa máquina – com a agravante de a partilharmos agora com perigosas panelas, talheres grandes e frigideiras, que invariavelmente nos tentam fazer em cacos.

Uns resistem mais, outros menos, mas o céu verde dos copinhos de leite é o nosso último destino, e espero um dia entrar lá já bastante velho e baço, escacado se tiver que ser, mas com a honra do dever cumprido.

Não espero estátuas nem filmes acerca de mim, ou dos meus semelhantes, só gostava que deixassem de chamar copinhos de leite a esses chorinhas que andam por aí e que nada têm a ver connosco.


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