Salsifré

Setembro 27th, 2011

Salsifré é uma palavra que eu aprecio, porque junta numa só expressão duas coisas que me dizem muito.

A salsa é um condimento que aprecio bastante.

Há quem a prefira dançada, mas para mim a sua utilização por cima de um bacalhau à brás, por exemplo, é aquilo que lhe faz ganhar a sua máxima expressão, é assim que tem realmente valor.

Fré é para mim muito importante também, já que é a segunda palavra que aprendemos quando entramos na universidade, logo a seguir a Frá, e portanto invoca lembranças dessa época.

Ora, uma palavra que junta um condimento de generoso paladar com as memórias dos belos tempos de instrução na universidade só pode resultar em música para os meus ouvidos, e daí eu achar que a deva utilizar mais vezes.

Quando gostamos muito de uma palavra, acho que faz sentido fazer um esforço para a utilizar mais, experimentando pô-la noutros contextos para além daqueles em que normalmente as usamos.

Sendo assim, se doravante me ouvirem dizer “esta coisa causa-me salsifré”, “parece que tenho um salsifré dentro do peito” “isto está muito salsifré” ou “és salsifré para mim”, devem entender que estão a obter uma reacção muito positiva da minha parte e não que estou a ter um discurso incoerente, amalucado ou estúpido.

Estamos combinados?

Não ficam a pensar que estou bêbado ou a ter convulsões ao nível do meu armazém vocabular?

Muito bem.

Então tenham um dia salsifré, e até uma próxima oportunidade.

Ideia peregrina

Setembro 16th, 2011

Existe uma expressão idiomática que se costuma usar com ironia quando se pretende identificar uma ideia descabida.

Já ouviram falar, de certeza, em alguém que teve uma “ideia peregrina”.

Além da transtornante imagem mental de uma ideia a peregrinar, parece-me que esta expressão é um dos maiores contra-sensos da língua portuguesa.

Ora façam lá esta análise comigo.

Se a ideia é descabida, é legítimo dizer que não tem pernas para andar, certo?

Os peregrinos, tradicionalmente, caminham para o local de peregrinação, correcto?

Faltando as pernas à ideia, esta não pode caminhar, pelo que se dá uma espécie de curto-circuito linguístico que retira lógica à expressão, porque, não tendo possibilidade de fazer o seu caminho, a ideia não peregrinará.

Uma forma mais correcta de denominar este tipo de ideias seria, por exemplo, “ideias com necessidades especiais”.

Além de mais exacta linguísticamente esta expressão, as ideias poderiam ostentar um autocolante identificativo e assim conseguiriam até arranjar com mais facilidade lugar para estacionar, e ficarem lá, bem quietinhas no seu sítio.

Grau de homossexualidade

Setembro 14th, 2011

Segundo a Associação Portuguesa de Canonistas (APC) – cuidado, não confundir com camionistas -, a declaração de nulidade de um casamento em que um dos cônjugues é homossexual depende do “grau” em que este se encontra.

Ora cá está mais um conceito iluminado do órgãos eclesiásticos, que brilhantemente arranjam uma forma de arrumar a homossexualidade dentro de uma gradação organizada.

Não temais meus irmãos, pois podeis ser só medianamente panisguinhas ou ligeiramente mariquinhas!

Fala-se mesmo de “medicina de correcção” para alguns casos de “grau” mais baixo, numa tirada absolutamente retro-medieval de se lhe tirar o chapéu.

A dúvida está na forma como aferir esse “grau” de homossexualidade.

Sendo um caso médico – como é alegado -, seria de esperar que a APC tivesse acesso a um qualquer aparelho, tipo alcoolímetro, que indicasse cientificamente o teor de homossexualidade no sangue, mas não, o que se sugere é uma perícia psiquiátrica.

Só que isso acaba por ser muito vago e por isso vou deixar aqui algumas sugestões concretas.

Para começar deve-se responder a uma bateria de sessenta questões, divididas por seis temas diferentes: moda, futebol, automóveis, bricolage e construção, arranjos florais, estética e artigos de beleza.

As respostas a estas perguntas revelarão de imediato uma tendência inequívoca, mas insuficiente ainda para a determinação de “grau”.

De seguida os examinados deverão ir para a parte prática desta avaliação, sendo equipados com um capacete detector de estímulos cerebrais e postos perante diferentes cenários reais.

Serão provocados para entrar numa discussão, caminharão numa rua de lojas, visitarão uma sex-shop, assistirão a um jogo de futebol e a um desfile de moda, e ser-lhes-à dada a hipótese de decorarem uma sala, um quarto e de escolherem o seu guarda roupa e penteado para três situações distintas (para uma festa, para estarem confortáveis em casa e para trabalhar).

As suas reacções e resultado das suas acções serão monitorizadas e a partir daí serão obtidos dados científicos para a atribuição de “grau”.

A leitura destes resultados funcionará de forma distinta para homens e mulheres, já que os “sintomas” diferem de género para género.

No final, e de acordo com a escala já avançada pela APC, deverão passar a usar, na parte interior das suas vestes, um pequeno talão em que será indicado o seu “grau”, à imagem da escala de eficiência energética dos electrodomésticos actualmente em vigor.

Desabafo de um copinho de leite

Setembro 12th, 2011

O meu nome é Barnabé e sou um copinho de leite.

Uma das minhas maiores desilusões é verificar que a designação “copinho de leite” é hoje em dia aplicada a pessoas de pouca fibra, medrosas, tímidas, fraquinhas ou cobardes.

As pessoas estão tão longe de saber o que é preciso sofrer para ser um copinho de leite!

Mesmo os humanos que são considerados mais fortes e valentes, como os comandos militares por exemplo, não são postos perante condições tão adversas e extremas como nós, os copinhos de leite.

A nossa formação começa logo com uma exposição prolongada a temperaturas elevadíssimas, acima dos 1250 graus centígrados.

Somos metidos dentro de enormes fornos, rodados e soprados permanentemente até estarmos bem formados.

Depois somos atirados para máquinas escuras onde nos atiram produtos químicos e água a alta pressão, para nos testar a resistência e a durabilidade.

A seguir somos encaixotados e enviados para onde sejamos necessários, muito apertados e fechados, viajando sem poder ser sair do sítio e desconhecendo o nosso destino.

Eu vim da China, por exemplo, e quando abriram a caixa, ao ver um senhor chinês a desembrulhar-me, fiquei todo contente, pensando que não estaria longe de casa.

Mas o roçar de um buço proeminente de uma senhora com um lenço negro na cabeça, poucos dias depois, mostrou-me o quão longe estou dos meus.

As pessoas não imaginam isto, mas nós estamos preparados para levar com água, sumos, cerveja, vinho e até whisky ou aguardente, somos fortes e resistentes e não é qualquer tombinho numa mesa que nos parte á primeira.

O leite é um bem necessário à pessoas e a nossa nobre missão de o levar à sua boca enche-nos de orgulho.

É por isso que não nos poupamos a nenhum sacrifício, e seria justo que a nossa tenacidade tivesse outro tipo de reconhecimento.

A nossa vida difícil não acaba aqui.

Ao longo da vida continuamos expostos aos mais diversos perigos, às bordas das mesas, às cadeiras de bebé, às sevícias da sempre tenebrosa máquina – com a agravante de a partilharmos agora com perigosas panelas, talheres grandes e frigideiras, que invariavelmente nos tentam fazer em cacos.

Uns resistem mais, outros menos, mas o céu verde dos copinhos de leite é o nosso último destino, e espero um dia entrar lá já bastante velho e baço, escacado se tiver que ser, mas com a honra do dever cumprido.

Não espero estátuas nem filmes acerca de mim, ou dos meus semelhantes, só gostava que deixassem de chamar copinhos de leite a esses chorinhas que andam por aí e que nada têm a ver connosco.

Luzes coloridas

Setembro 6th, 2011

É engraçada a capacidade que as luzes coloridas têm para atrair determinadas coisas ou pessoas para determinadas  coisas ou locais.

Há luzes coloridas onde esse poder de atracção é francamente notório e é por isso que o lixo se sente impelido a saltar para os camiões com luzes amarelas rotativas.

As moscas também não resistem a uma bela luz azul, e, mesmo sabendo que o seu destino será fatal, entregam-se a elas de asas abertas.

A luz roxa – também apelidada de negra – tem a capacidade de atrair os dentes para fora da boca, dando origem a fenómenos idênticos a uma concentração de pessoas disfarçadas de gatos de Cheshire, do País das Maravilhas.

Os homens também não resistem a casas com luz vermelha, vá-se lá saber porquê.

Deve ser por isso que Las Vegas é uma cidade especial, que fascina tanta gente.

Las Vegas caracteriza-se por ser um sítio com luzes de todas as cores, tamanhos e feitios e por isso atrai um variado leque de pessoas, sendo mesmo plausível pensar que possa lá ser encontrada uma espécie única de ser vivo, o lixo humano sorridente e amosquitado.

Este ser vivo já terá sido avistado em algumas discotecas, mesmo cá em Portugal, e é fácil de identificar pelo ar aparvalhado com que reage às luzes coloridas.

Pode ser detectado em ambiente controlado – mesmo em vossas casas se suspeitarem de alguém – através da utilização de um caleidoscópio.

Sejam muito cuidadosos, no entanto, porque a exposição prolongada às luzes coloridas pode causar danos irreversíveis a estes indivíduos.

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