Imposto sobre heranças e doações

Agosto 29th, 2011

O nosso Presidente da República mostrou-se recentemente favorável ao ressurgimento de um imposto sobre heranças e doações.

Estas declarações deixaram muita gente estupefacta e indignada, julgando este imposto estapafúrdio.

Esta reacção deve-se ao facto de nem todos terem a faculdade de possuir uma massa cinzenta luminescente, como a do nosso Presidente, associado a um baixo conhecimento geral sobre o modus operandi do nosso povo no que à matéria fiscal diz respeito.

Seria aconselhável que todos parássemos um pouco para pensar no reais efeitos desta medida, ante de criticarmos levianamente.

É sabido, por muito que se queira encobrir este facto, que o povo português tem uma tendência natural para fugir aos impostos – ou pelo menos tentar.

Sendo assim, o que aconteceria se este imposto existisse?

Os portugueses morreriam menos, ou pelo menos empenhar-se-iam muito mais para que isso acontecesse, só pelo facto de saberem que assim não iam contribuir para engordar os cofres do estado.

Além da satisfação geral das famílias, pela manutenção durante mais tempo da convivência com os seus entes queridos, obter-se-ia também uma poupança significativa nos gastos com funerais.

Este efeito alargador da sobrevivência dos portugueses é, no entanto, factor de preocupação para os profissionais do sector, estando prevista para os próximos dias uma manifestação junto ao Cemitério dos Prazeres, organizada pela Confederação Nacional de Mortes (C.N.M), que objecta com veemência esta medida, dada a instabilidade que a mesma acarreta para as carreiras destes profissionais.

Segundo Josué Jazigo, presidente da C.N.M, “toda a gente diz que a Morte é certa, e não é por acaso, já que nos últimos anos temos mostrado a nossa dedicação e profissionalismo. Por isso parece-me inadequado criarem-se condições para a desestabilização do sector. Sem matéria prima não conseguimos trabalhar e temos objectivos exigentes para cumprir, por causa do acordo com a Troika, que não podem ser postos em causa!”

Quando questionado até onde as Mortes estariam dispostas a ir, Josué Jazigo afirmou: “A nossa luta será até ao fim! Não nos provoquem porque não vamos ficar quietos. Com a Morte não se brinca!”.

A Cooperativa de Fabricantes de Ceifeiras Manuais e a União dos Tecelões de Mantos Negros com Capuz estão solidários com as Mortes e estarão também presentes na manifestação, distribuindo simbolicamente mantos tingidos e ceifeiras com lâminas quebradas aos transeuntes.

Espera-se uma grande afluência de Mortes a este acontecimento, tendo a TVI e o Correio da Manhã garantido o exclusivo da cobertura em directo do evento.

 

 

Números nos vidros dos carros

Agosto 25th, 2011

Começo a reparar num número crescente de carros com papéis colados no vidros, onde consta tão somente um número constituído por nove algarismos, começando todos pelo 9, semelhante a um número de telefone.

Qual será o significado disto?

Há quem diga que é sinal de que está para venda, mas não vejo nada que permita tirar essa conclusão de forma inabalável.

Já me ocorreu que talvez sejam pessoas solitárias ou que gostam de muito falar, e por isso publicitam o seu número de telefone, sem se identificarem.

Um boa notícia para quem faz chamadas anónimas, porque se telefonar para um desses números vai falar com alguém que também não sabe quem é, havendo assim algo que os une.

Pareceu-me no entanto ter ouvido – vociferado numa conversa de café por um senhor que tinha acabado de perder uma aposta, cuja penalização o obrigou a raspar a traqueia por dentro com um cacto – que se tratará de um jogo de sorte, organizado pela concorrência silenciosa – ou silenciada – da Santa Casa da Misericórdia.

Um jogo clandestino inspirado na lotaria, em que um indivíduo – não identificado – procura pelo País o carro que tenha colado no seu vidro o número constituído por nove algarismos, começado por 9, em que ele pensou na noite anterior, enquanto obrava antes de ir para a cama.

O prémio será equivalente ao número – diz-se por aí, não se sabe bem onde – mas em kwacha malawiana.

Pode também ser uma espécie de tatuagem posta no carro, como fazem alguns reclusos na própria pele, mantendo viva a memória de quando o proprietário ficou preso no trânsito, sem comer e sem beber, chegando depois ao fim da fila e verificando que afinal não se passava nada.

O número corresponderá à totalidade de milissegundos passados em torturas semelhantes nos últimos dez anos se for habitante de uma cidade de média dimensão, sendo que em Lisboa e Porto a contagem é feita anualmente e no interior do País secularmente.

A dúvida mantém-se no meu espírito, com a certeza porém de que, seja lá o que forem estes números, são algo misterioso e pouco transparente, o que deve tornar as manobras um bocadinho mais complicadas.

Tiro aos pratos

Agosto 22nd, 2011

Ontem apercebi-me – por estar próximo de um campo de tiro – de um verdadeiro genocídio.

Cento e vinte e seis pratos morreram durante uma tarde, assassinados por atiradores equipados com óculos especiais e protecções auditivas, e ninguém fez nada para impedir esta matança.

Não consigo perceber o que motiva estas pessoas, capazes de um acto tão bárbaro.

Podiam fazê-lo com o intuito de os comer, mas não me recordo de ouvir falar em Arroz de Prato nem de Prato com Laranja.

O mínimo exigível seria que, pelo menos, utilizassem os restos mortais para fazer Bolo do Caco, mas nem isso é aproveitado.

Há mais motivos que me causam alguma exaltação interior quando penso nas consequências desta mortandade selvática.

Alguém se importa com o drama familiar que o desaparecimento destes pratos causa?

Como ficará uma prata, ao receber a notícia de que o seu marido foi morto enquanto voava inocentemente por cima de um campo?

Fundida, com certeza!

É um problema muito grave da nossa sociedade, que tem que ser denunciado.

Há um tratamento desigual de umas coisas para as outras, preconceitos que persistem, resistindo ao evoluir das mentalidades.

Se alguém dispara contra um banco, mesmo que só arranhando a sua pintura ligeiramente, vai logo a polícia atrás dele, perseguindo-o, prendendo-o e punindo-o com severidade.

Mas se se dispara contra um prato, deixando-o estraçalhado, jazendo no chão, nada é feito a não ser bater palmas ao indivíduo que efectuou o disparo e felicitá-lo pela pontaria.

Há até competições que legitimam esta prática e prémios para os melhores atiradores.

Uma pouca-vergonha!

Pratos e bancos deviam ser tratados da mesma forma e já é altura de acabar com estas razias de pratos ao fim de semana.

Persiga-se e castigue-se quem dizima a pratalhada!

Metralhadora enfadonha

Agosto 18th, 2011

A metralhadora é o objecto mais entediante jamais inventado, e quem se atrever a dizer o contrário é um ovo crú com salmonelas.

Fumadas!

É chata, repetitiva, cinzentona, monótona, monocórdica, sempre a disparatar – “te-rréu-téu-téu, te-rréu-téu-téu, te-rré-téu-téu” – sempre a mesma coisa… uma seca!

Quando começa parece que ninguém a consegue calar e, como é evidente, não há paciência para aturar uma coisa daquelas durante muito tempo.

Por isso – nem é preciso muito -, passado um bocado toda a gente à sua volta fica a dormir.

Experimentem ir a um jantar e levar uma metralhadora convosco, e depois vejam as caras que as pessoas fazem.

Começam logo a imaginar aquele ritmo sincopado, enfadonho, com que as metralhadoras debitam as suas bojardas, o tédio insuportável, e muitas das vezes até se vão embora mal avistam uma a chegar perto da sua mesa – fogem! -, para não lhe dar hipótese de começar com o seu fastidioso metralhar.

Se levarem uma metralhadora a passear na rua ou à praia, vão ver quem nem os pedintes vos abordam, tal é a sua fama.

É de tal forma que há quem dê um tiro na cabeça, só porque sabe que se aproximam de si uma catrefada delas.

O senhor John Gatling, que supostamente inventou a primeira, não devia ser muito amigo do socializar.

Custava alguma coisa dotá-la de ritmos variados, de crescendos e diminuendos, mudanças de tom ou cambiantes de luzes?

Não, não custava…mas o senhor não devia gostar muito de surpresas, nem de dinâmica, nem de festa, nem conseguiria simplesmente manter o interesse de uma conversa de circunstância.

Preferiu então fazer tudo mais contido e previsível e depois deu nisto: uma coisinha insuportável e previsível, que faz com que as pessoas tombem, de tanto se aborrecerem de a ouvir.

Meus amigos da indústria do armamento, ponham os olhos no que a juventude gosta e observem as tendências, se não querem entrar numa longa crise.

De quem é que os jovens ingleses se fizeram acompanhar nas pilhagens?

De divertidos paus, glamorosas pedras e espectaculares bombas incendiárias caseiras.

Os sinais estão todos lá, não é preciso dizer mais nada.

Meteorologia

Agosto 16th, 2011

É incrível a quantidade de vezes que as previsões meteorológicas não batem certo, não é?

É suposto ser uma previsão científica, o que sugere uma margem de erro bastante diminuta, mas depois uma pessoa fia-se nelas e arrisca-se a ir para a praia de calções e apanhar chuvadas de granizo com temperaturas de fazer gelar os tintins.

Isso fez-me pensar no que terá dado origem a esta profissão e acho que encontrei a resposta na própria palavra que a define.

Há algumas centenas de anos atrás – arrisco mesmo a dizer séculos -, ocorreu a queda de um meteorito e, perto do local da queda, observando atentamente o meteorito, alguém terá afirmado: “Isto aqui está quentinho, está! E parece-me que vai ficar assim nos próximos dias.”

Ainda lhe disseram que estava a dizer aquilo de forma extemporânea, mas ele riu-se e disse “Volto a dizer o mesmo. E não me parece que haja precipitação nenhuma”.

Como os dias seguintes também foram quentinhos e não choveu, a população começou a estar atenta ao que aquele senhor dizia, pensando que ele tinha a capacidade de o fazer porque lia os meteoritos.

O sujeito aproveitou-se disso, começou a cobrar pelas suas leituras dos meteoritos – a que chamou de previsões meteorológicas -, e as pessoas passaram a apelidá-lo a partir daí de meteorologista.

A linearidade do clima no deserto de Mojave podia ter-lhes chamado a atenção para a eventualidade de estarem a ser burlados, mas pelos visto isso não aconteceu.

O charlatanismo deste vidente de meteoritos fez escola e daí a oficializar esta profissão foi um passinho só.

Criaram-se até Institutos de Meteorologia, mas noutros territórios com um clima mais instável as previsões revelaram-se menos fiáveis.

Isso tão evidente que era preferível pôr um velho pescador ou uma idosa com reumatismo a informar como irá estar o tempo nos dias seguintes, se quisermos evitar sair de gorro e cachecol à rua num dia ardente de canícula.

Qualquer dia, se alguém se apercebe desta realidade, começamos a ver anúncios de meteorologistas nos jornais, ao lado do professor Malangué, mas aí com mais poderes divinatórios, aplicados aos casamentos vindos de Espanha ou às temperaturas das vinganças, por exemplo.

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