Mudar de canal

Julho 21st, 2011

Já repararam que  Amsterdão, Veneza ou Bruges são cidades extremamente televisivas?

Não digo isto pela sua beleza indiscutível, mas sim porque a sua estrutura é criada por diversos canais.

É de tal forma que os seus habitantes, quando têm que mudar de casa, não chamam a esta acção uma “mudança”, chamam-lhe zapping, porque normalmente implica que mudem de canal.

E já viram que desagradável que deve ser viver com esta ideia de, mudando de casa, ter de o fazer para um canal deferente?

Imaginem se a crise bate mesmo forte, como ameaça, nestes países: os canais vão ter que ser privatizados e aí vai ser difícil transitar nestas cidades.

Acho que pode ser uma boa ideia, para animar a malta e ajudar a esquecer os problemas, criar uma franchising de bares académicos (normalmente apelidados BA) nestas cidades, com a marca “BA Canal”.

Sucesso garantido!

 

Restaurante “Lonely Wolf”

Julho 19th, 2011

O restaurante Lonely Wolf, perdido algures no deserto que circunda Las Vegas, está a dar que falar pelo seu conceito inovador, absolutamente focado na satisfação plena de todas as necessidades do cliente.

Vejamos o diálogo abaixo – traduzido livremente para melhor compreensão – onde está bem patente o nível de inovação deste palácio dos sabores.

– Já escolheu?

– Sim, sim. Vou comer a picanha.

– Com feijão preto e couve mineira?

– Pode ser. E um bocadinho de arroz branco.

– Basmati?

– Sim.

– E para acompanhar?

– Para acompanhar pode ser uma núbia caribenha, bem tostadinha, por favor.

– Com picante ou sem picante?

– Traga o picante à parte, se não se importa. Elas já são quentes demais ao natural e não quero exagerar.

– Vai desejar alguma entrada?

– Desejo sim senhor! Uma portuguesinha da costa, das mais pequeninas, mas peça ao chef para pôr extra sal, que elas têm saído um bocadinho insossas ultimamente. E umas ameijoas.

– E para beber?

– Tomo o mesmo que a menina.

No final da refeição, o empregado de mesa dirige-se de novo ao cliente.

– Estava tudo bem?

– Sim, bastante bem. A núbia podia ser um bocadinho mais quentinha… mas com o picante ficou bem, não se preocupe.

– Vou informar o chef e pedir para ter isso em atenção da próxima vez, peço desculpa. Vai desejar sobremesa?

– Vou experimentar o vosso sonho de chocolate em cama de ovos moles e framboesas.

– E sobre a mesa?

– Também, sim. Acho que ainda arranjo um espacinho para o vosso misto asiático. Mas só duas! Sem creme, que já chega de calorias. Pode ser?

– Sim senhor. Duas bolas de gelado em cima?

– Não, só um saquinho de gelo, para pôr em baixo, por favor.

– E no final, um digestivozinho?

– Sim. Qualquer coisa da Real Companhia Velha.

Como viram, nada é descurado neste restaurante, um dos mais fortes candidatos a ser premiado nos guias de várias especialidades, integrando simultaneamente os guias “Boa Cama“, “Boa Vida” e “Boa Mesa“.

Uma experiência gastronómica inolvidável, certamente.

Policiamento low-cost

Julho 15th, 2011

Segundo uma notícia recente, um polícia de Vila do Conde conduzia há anos carros patrulha, apesar de não ter carta de condução.

Acho que faz sentido neste esforço nacional para a diminuição da dívida pública, porque o patrulhamento, feito por este polícia, devia ser muito mais barato do que o que é feito pelos restantes agentes.

No seguimento da secular tradição comercial portuguesa, que consta na diminuição de honorários consoante o cliente pretenda ou não factura, a polícia desenvolveu um novo meio de corte nos custos para o cliente final, que será certamente aplicável às empresas de transportes de passageiros ou mercadorias: “com carta ou sem carta?”

Muito argutas as forças de segurança, no seu contributo para a contenção da despesa do cidadão!

Segundo fonte que já ganhou verdete junto à bica, a polícia está agora a estudar a remoção da obrigatoriedade da licença de porte de arma para os seus agentes, aprovar uma diminuição do uniforme até ao nível de calção curto, utilização de fisgas  em vez de pistolas e a possibilidade de substituição do distintivo policial por uma marcação inscrita na testa ou no corpo, com batôn, a dizer PSP.

Assim, a polícia portuguesa estima poupar cerca de uma batelada de dinheiro, sendo pioneiros de uma nova vaga nas forças da ordem a nível mundial: o policiamento low-cost.

O bronco: esse animal

Julho 12th, 2011

A organização da oficina de um modelador de personagens é extremamente importante, e pode influenciar decisivamente o resultado final da sua obra.

Vou-vos dar um exemplo.

Quando o Mundo foi criado, os animais foram sendo modelados e foi-lhes sendo dado algum material essencial para a formação da sua personalidade, fundamental para a sua acção terrena.

Assim, ao Homem foi-lhe dada a razão, sendo aos restantes animais entregue ração.

Como estes dois items se encontram muito próximos, por infeliz distracção foi atribuída ração em vez de razão a alguns seres humanos, estando aqui a génese de um ser ímpar: o bronco.

O bronco, apesar de ter aparência de pessoa normal, diferencia-se pelo seu comportamento animalesco.

Também conhecido por burgesso,este animal tem por hábito cuspir para o chão, conduzir agressivamente e usar escapes ruidosos, passar à frente nas filas, atirar lixo para o chão, falar alto e dizer muitos palavrões, arrotar, trazer um palito na boca, deixar crescer a unha do dedo mindinho, ser bruto de acção e pensamento, coçar as partes íntimas frequentemente, usar cabelo com gel – curto em cima e longo atrás, a cobrir o pescoço -, usar manga cava e proeminente crucifixo dourado ao peito, comer com os olhos as mulheres que passam e mandar umas “bocas”, arrastar as crianças pelo punho em vez de lhes dar a mão, gabar-se das suas façanhas sexuais – mesmo que sejam inventadas -, entre outras maneiras de estar e de ser, inconcebíveis para o comum cidadão.

Apesar de parecer um ser desprezível, o que é certo é que há muitos e há até quem faça vida com eles e goste muito, sendo normal que as suas crias adquiram os seus comportamentos e se reproduzam desde tenra idade, garantindo assim a manutenção da espécie.

Mais do que isso, chega a ser homenageado, dando nome a clubes desportivos, artigos para crianças, roupas, remédios ou modelos de veículos automóveis, e isso, definitivamente, não se percebe e até devia ser proibido.

É uma espécie que se encontra um pouco por todo o lado, mas que se movimenta muito bem em estádios de futebol, festas populares, feiras, hipermercados e encontros de tuning, uma espécie de praga que dificilmente abrandará o ritmo de crescimento.

Por isso tenham muito cuidado, se pensarem em dedicar-se à modelagem, com a organização da vossa oficina.

Já viram o que um simples enganozinho pode ocasionar.

 

O andador salvador

Julho 8th, 2011

Numa breve passagem por uma praia da nossa costa deparei-me com vários papéis colados nos acessos à mesma, onde constava a singela frase, inscrita a negrito sobre papel branco, “Só Jesus salva!”.

Pensei inicialmente que se tratava de mais uma iniciativa evangélica, aproveitando o aumento do fluxo de pessoas para as praias, normal na época balnear, para difundir a sua mensagem de fé.

Só depois se fez luz e percebi que aquilo se tratava na verdade de um aviso muito mais sério do que à primeira vista aparenta, e a localização dos cartazes ganha assim uma pertinência que já perceberão.

Estes cartazes têm certamente a ver com mais um caso de “lobo em pele de cordeiro” e alertam-nos para o facto de o demónio estar a prestar um serviço aparentemente útil com segundas intenções, imiscuindo-se assim num trabalho que só a Jesus compete.

Refiro-me obviamente à função do nadador salvador.

Vejam bem ao ponto a que chega Belzebú, e quão retorcido é o seu pensamento!

Distribui pelos vastos areais uma série de jovens em boa forma física, tonificados, fazendo explodir as fantasias e a líbido da população adolescente, dando-lhes simultaneamente uma aparência de valorosos heróis que nadam para salvar as almas daqueles que têm o infortúnio de se deparar com um possível afogamento, granjeando assim o apoio geral da população e tornando-os aceitáveis – diria mesmo indispensáveis – até para a mais fiel das beatas.

Ora isto tem um efeito muito pernicioso, porque o comum mortal tem dificuldade em se aperceber da perversidade desta cartada decisiva na grande batalha da fé, que os leva a crer que mais alguns terão o “poder” de salvar as pessoas, diminuindo assim a crença em Jesus e o regular recurso aos seus préstimos.

Estes cartazes são pertinentes porque nos trazem à memória que só Jesus pode efectivamente salvar essas pessoas.

E nem precisa para isso de nadar, porque é sabido que lhe basta caminhar sobre as águas para proceder à salvação das suas  demolhadas ovelhas, sendo portanto muito mais eficiente e cansando-se muito menos.

O mais impressionante disto tudo é a subtileza com que Lúcifer trabalha, senão reparem bem: a expressão encontrada para definir a função destes jovens – o “nadador salvador” – advém da troca simples das duas primeiras letras da expressão que poderia definir Jesus quando este faz alguma intervenção no meio aquático – o “andador salvador”.

Subliminar mas de uma força a toda a prova esta camuflagem linguística, que prova que no que toca ao surripianço de almas tudo vale lá para os lados dos infernos.

Tenham pois muito cuidado quando estiverem na praia, desconfiem dos nadadores salvadores e façam as vossas orações antes de entrar na água, para que possam usufruir da linha directa para o verdadeiro socorro (0800 – JESUS), que está directamente ligada à central divina.

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