Tratamento desigual

Maio 2nd, 2011

Há alturas na vida em que o sítio onde estamos sentados influencia perniciosamente o nosso pensamento.

Digo isto porque dei por mim há pouco a pensar que se compararmos as duas convulsões sintomáticas de doença ou mal estar, a tosse e o espirro, denotamos que o espirro é muito beneficiado em relação à tosse, na forma como o recebemos.

Se repararmos bem, o espirro é sempre saudado, após a sua chegada inesperada, com um sonoro “viva!”, “saúde!” ou “santinho!”, expressões aliás que originam o agradecimento imediato do autor do espirro.

A tosse por outro lado é recebida com indiferença, sem qualquer expressão popular que a acompanhe.

Por muito que uma pessoa fique roxa de tanto tossir, nem uma palavra de carinho, nem uma expressão de solidariedade.

Com a proliferação das associações defensoras dos direitos de qualquer coisa que se mexa, até me admira que ninguém tenha ainda levantado a voz para reivindicar o direito da tosse ser igualmente recebida com expressões semelhantes à dos espirros.

O mesmo se passa com os soluços, mas noutra escala, já que estes têm em relação aos outros a vantagem de acarretarem consigo momentos hilariantes de apneia, sustos ou encharcamentos massivos de traqueia.

Tudo isto, dizia eu no início, porque estava sentado em louça sanitária, tendo por isso esta pequena reflexão a forte influencia do produto interno bruto que tinha acabado de libertar.

A administração pede desculpa por qualquer desconforto causado.


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