Profissão: Nativo

Março 3rd, 2011

Há pessoas neste Mundo cuja profissão é simplesmente ser nativo.

A sua missão é ficar parados o dia todo junto da sua casa típica, envergando um traje tradicional e cumprimentando em dialecto local os turistas, que procuram desesperadamente uma foto-troféu com o indivíduo, exibindo-as posteriormente como se tivessem pescado um espadarte de sete metros na rebentação das ondas provenientes do mar alto.

Os rendimentos dos nativos vêem da contribuição dos turistas que museificam estas pessoas no seu habitat natural, remunerando-os por se manterem “originais” – ainda que os artesanato local que vendem seja fabricado na China, a comida que oferecem comprada numa grande superfície ou os seus trajes obtidos numa loja de disfarces de Carnaval.

A fuga do seu padrão de comportamento expectável será tão surpreendente como um peixe decidir fumar um charro dentro de um aquário, fazendo bolinhas com a boca e dissertando sobre a filosofia de Nietzsche, e por isso não se recomenda.

Esta é a razão porque a ASAE nunca conseguiu vingar na internacionalização, porque se a ASAE se internacionalizasse os índios deixariam de poder fumar o cachimbo da paz, os asiáticos deixavam de vender insectos fritos na rua e os cubanos não mais enrolariam os charutos em cima das coxas de mulatas.O nativo de sucesso é, porém, aquele que não se limita a estar, mas que é pró-activo e criador de pontos de interesse turístico, por exemplo transformando uma simples rocha com uma forma curiosa num bisonte que aí sofreu um desgosto de amor e que enfurecido saltou do penhasco para se suicidar, sendo salvo pela intervenção de um deus local do amor que o rochificou antes que chegasse ao mar.

A natividade (não confundir com o nascimento de Cristo), ou nativismo, encontra maior expressão usualmente nos países economicamente menos desenvolvidos ou em crise, sendo por isso uma profissão de futuro no nosso burgo.

Por isso acho que deveria ser uma prioridade do POPH, cujos responsáveis têm que abrir os olhos para esta realidade e apostar na formação e qualificação de cada vez mais nativos lusos como reforço da oferta turística nacional.

Podem contar com a minha modesta contribuição, já que planeio no futuro deixar crescer o buço às minhas filhas e vestilas de saias pretas, com o devido lenço negro e cesto de vime à cabeça, enquanto os meus filhos usarão desde novos um bigode empatilhado, um garruço, palito na boca e uma sachola.

Vou pô-los a viver num palheiro junto da corte das vacas, para que não lhes falte nada e sejam nativos de sucesso e reconhecidos mundialmente.


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