Subida da taxa de juro

Março 31st, 2011

Eu sou um grande apologista da subida das taxas de juro e acho mesmo que só com a subida delas é que podemos almejar ao restabelecimento da credibilidade da nossa democracia.

Pode parecer estranho numa primeira leitura, mas parece-me que faz sentido se tivermos em conta que existe um ditado popular que diz que quem mais jura mais mente, e se considerarmos que uma promessa é um comprometimento, logo, uma jura.

Assim sendo, cada vez que um político se compromete com algo, quando promete alguma medida, está, na prática, a dizer “juro que…”.

Uma forma eficaz de controlar o seu desprendimento verbal, o anúncio avulso de ideias demagógicas e o populismo crescente e insustentável dos programas eleitorais seria então criar um imposto sobre esse  acto de dizer “juro”, uma taxa de juro a sério, que incidisse sobre esses devaneios constantes dos politiqueiros profissionais.

Essa taxa deveria ser aplicada de forma rigorosa e implacável, para que eles sentissem na prática os reflexos de cada declaração ou juramento não levados a cabo e/ou se aplicassem a fundo na concretização das medidas propostas.

Por outro lado, se desta forma não ficasse corrigida esta maneira de estar na política, ao menos algum contributo para o aumento da receita pública estaria a ser prestado directamente pelos nossos políticos e nem tudo estaria perdido.

Depois de criada essa taxa, que suba, que suba muito e muito rápido, para ver se entramos nos eixos.

Precisão nos pedidos

Março 21st, 2011

Muitas das pequenas frustrações da vida têm origem na forma como exprimimos as nossas vontades.

É provável que já tenham ouvido ou proferido uma frase do género “pedi o café cheio, não pedi uma sopa de café!” ou “pedi-te um bocadinho de arroz, não era só meia dúzia de grãos!”.

Estas frases ocorrem porque cada um de nós tem conceitos diferentes de cheio,  curto, um bocadinho ou muito, quente e frio ou outros graus de grandeza relativos.

É por isso que eu acho que devíamos ser mais precisos no momento dos nossos pedidos, para que as nossas necessidades sejam satisfeitas na plenitude.

Para isso temos que quantificar aquilo que pedimos com o máximo de precisão possível, para não restarem dúvidas ao nosso interlocutor.

Vejamos um exemplo:

– Bom dia, são três cafés por favor. Para esta menina servido a cinco nonos de chávena, para o meu sobrinho a nove/doze avos com chávena escaldada a 83ºC e para mim a seis/onze avos, com cheirinho de bagaço, numa relação de um para seis e deitado na chávena posteriormente ao café, pode ser?

– As informações que não foram fornecidas, posso assumir que é para aplicar o standard da máquina, certo?

– É isso mesmo, muito obrigado.

Pedindo as coisas desta forma, e sendo os cafés servidos da exacta forma que foram pedidos, tenho a certeza que não haveria lugar a insatisfações.

No caso de o serviço não vir conforme, o poder de reclamação sai reforçado, não havendo lugar a argumentações com base em relatividades.

Tenho para mim que substituir expressões como “abre um bocadinho a persiana”, “vai devagar” ou “um galão escurinho e morno” por “abre a persiana até à sexta ripa”, “vai a uma velocidade não superior a 40km/h” ou “um galão com três vezes mais café do que leite, servido a 38ºC”, eram uma mais valia para todos e minimizavam de sobremaneira o risco de discussões, aumentado a nossa felicidade em, pelo menos, 199%.

O varão da droga

Março 15th, 2011

A minha vida sempre foi complicada, mas estava longe de imaginar que acabasse aqui sentado nesta gruta penitenciária, sem nada mais para fazer do que contar a minha estória.

A vida dá muitas voltas, e eu presenciei mesmo a muitas, acreditem.

Nasci fruto de uma relação íntima de uma dançarina exótica dos arredores de Nápoles com o seu instrumento de trabalho e desde o primeiro dia senti que era diferente das outras crianças.

Fui o primeiro filho varão da minha mãe e parece-me que não nasciam assim tantos varões nas redondezas, pela reacção das pessoas quando me viam no estojo em que a minha mãe me transportava para todo o lado.

Talvez os espermatozóides-menina estejam na moda – pensei – , e habituei-me à ideia rapidamente.

Até apreciava a minha unicidade, sentia-me distinto, exclusivo, importante.

Ainda criança de estojo comecei a frequentar os locais de trabalho da minha mãe, locais obscuros frequentados por toda a espécie de gente com dinheiro para estourar, mas onde a minha mãe reinava no cimo do palco.

A cor e o movimento do espectáculo sempre me seduziu e não descansei enquanto não consegui fazer parte de um número de strip numa casa nocturna, treinava nas caves e sótãos, mas só aos 15 anos ganhei corpo para me fixar numa sala a sério e fazer o meu primeiro espectáculo.

Vivia então um mundo de novidades e sonho, sempre com mulheres rodopiando à minha volta e aplausos orgásmicos a jorrar dos sofás, pondo frequentemente de pé partes da plateia.

Um sonho tornado realidade, que foi muito bonito enquanto durou.

Mas depois de alguns anos uma pessoa fica cansada, comecei a entender este negócio e a perceber que as dançarinas eram afinal quem ficava com todos os lucros e louvores.

Era a elas que estava reservado o convívio com os magnatas e estes vertiam-lhes rios de dinheiro no decote mais rapidamente que um gasolineiro de fórmula um.

Ninguém apreciava devidamente o meu trabalho e a frustração acumulava-se em mim como o lixo num aterro sanitário, até que num dia em que a sorte se distraiu me cruzei com uma pessoa que mudou a minha vida.

No intervalo de um show, encostado à janela partida do armazém do clube, no beco sombrio situado nas traseiras dos holofotes da entrada, fumava um cigarro descontraidamente quando fui abordado por um indigente de vestes rasgadas, que me abriu os olhos para a realidade.

À minha volta circulava muito dinheiro, muito mesmo, muitas jóias, carros bons, todo o luxo que se podia imaginar, e muito dele vinha da vida do crime, da extorsão, das armas, da droga.

Já nessa altura era uma pessoa marcada pelas cicatrizes da vida, mas era indesmentível que poucos seriam tão duros como eu e o meu corpo esguio tornava-me muito difícil de apanhar.

As palavras do sábio mendigo martelavam a minha cabeça noite após noite até que numa madrugada gelada tomei a resolução de começar a minha guerra contra os senhores do crime locais, e armado de um revólver Vareta que encontrei numa caixa de sapatos que pertenceu ao meu avô comecei a minha demanda.

Desenvolvi capacidades de camuflagem inauditas à época, atacava furtivamente e eles rapidamente sucumbiram ao meu poder.

Assumi assim o controle do crime organizado.

Durante vários anos controlei todos os esquemas: prostituição, jogo, bebida, segurança, roubos de carros, contrafacção, raptos e até roubo de guloseimas a crianças.

Mas a minha principal fonte de rendimento – e futuramente de desgraça – era a droga.

Controlava todo o processo, desde a produção à distribuição e ninguém ousava pensar em enrolar um charro sem que eu desse autorização.

Por isso me começaram a chamar o Varão da Droga.

O que eu não consegui controlar foi a tentação de usar os produtos que fabricava e vendia.

Comecei a empoeirar-me com cocaína de forma descontrolada, ficava com a visão turva e os sentidos adormecidos, imerso num mundo irreal de facilidades e de vã felicidade, e daí a injectar-me com heroína foi um pequeno passo.

Fui aos poucos ficando todo furado e uns jovens ambiciosos começaram a fazer-me frente.

Perdi o controlo de alguns negócios, primeiro as meninas, depois a jogatana e rapidamente perdi a protecção de polícias e juízes, que viram o seu valor de mercado aumentar com o aparecimento dos meus concorrentes.

Fui então indicado como um dos dez criminosos mais procurados no mundo e a partir daí a minha vida foi um inferno, de fuga em fuga, num corropio que nem os meus nervos de aço me ajudavam a suportar.

É inexplicável a sensação de saber que ao mínimo deslize estamos fundidos.

Ia-me valendo o facto de ser esguio para não ser apanhado facilmente, mas ao fim de muito fugir fui um dia apanhado numas redes apertadas de pesca à lampreia e encaminhado para este buraco, onde só me resta esperar pelo final dos meus dias.

Tolhido neste espaço soturno e insalubre, vejo agora que os meus primos que se dedicaram a uma vida de cortinados estavam afinal certos.

Não têm carros, mulheres, nem luxos, mas a luz é certinha a cada manhã e nada lhes corta o poder de continuar a sonhar.

Do mendigo nunca mais soube nada, mas agora desconfio que as vestes rasgadas não terão tido origem em decisões sensatas da sua vida.

Burocracia sexual

Março 11th, 2011

Há mais de dois anos escrevi aqui sobre uma profissão que acredito dever ser criada na administração pública, os Técnicos Oficiais de Sexo (TOS).

É uma ideia que nunca me abandonou o pensamento até que dei por mim a pensar como a máquina burocrática poderia dar cabo da vontade do cidadão em usufruir de tão necessário serviço público.

Vejamos um exemplo:

Cidadão (C): Boa tarde, é aqui que se faz a requisição de uma TOS?

Burocrata 1 (B1): Para que uso: único ou regular?

C: Se pudesse ser regular agradecia.

B1: Qual é a sua idade?

C: 46 anos.

B1: O senhor já consultou o seu médico?

C: Sim, até foi ele que me aconselhou a vir cá.

B1: Tem a guia consigo?

C: Tenho sim senhor, está aqui.

B1: Pois… mas aqui diz que o senhor só vai ter direito a uma utilização esporádica, porque é casado e não tem patologias de necessidade permanente.

C: Mas dou-me muito mal com a minha mulher e ela só faz missionário. E sempre a ver televisão. E no dia dos meus anos, se eu não estiver muito bêbado. E se os meus pais não tiverem ido lá a casa visitar-me nem me tenham telefonado.

B1: Isso é um problema que não podemos resolver amigo. Quanto mede?

C: 1,76m.

B1: E de pénis?

C: 12 cm.

B1: Então vai ter que ir ali ao meu colega, porque aqui só posso receber formulários de homens com mais de 1,80m ou com mais de 15cm de pénis.

C: Ok, obrigado.

Desloca-se até à caixa do Burocrata 2 (B2), onde se passa o mesmo diálogo ipsis verbis, até este ponto.

Aconselha-se portanto a re-leitura do texto acima, só para ter a certeza de que se percebe tudo e para não falhar nenhuma informação.

B2: Já esteve com alguma TOS antes?

C: Não, é a primeira vez.

B2: Então tem que ir ao 2º andar e falar com o meu colega que está no segundo corredor à direita, que é o responsável pelos processos de iniciação.

Corridinha rápida até ao Burocrata 3 (B3), novamente com o mesmo diálogo que, relembro, deverá ser lido novamente.

B3: Então está todo ansioso, ãh? (riso de burgesso)

C: Estou muito nervoso, eu até nem queria muito cá vir, mas o médico diz que me vai fazer bem.

B3. Vai sim senhor, digo-lhe eu! (novo riso burgesso). E então ainda é virgem com essa idade?

C: Não, até tenho dois filhos.

B3: Oh homem, então tem que ir a outro lado que aqui só trato de quem quer perder os três, pá! Veja lá isso com o meu colega aqui do gabinete ao lado.

Aí o senhor desloca-se para o gabinete ao lado, os do Burucrata 4 (B4), para dar andamento ao processo.

As perguntas começam todas novamente.

Será melhor talvez ler novamente o que ficou para cima, não vá ter-se esquecido de algum pormenor.

B4: E então vai ser uma loirinha não é?

C: Se pudesse escolher preferia a sôdona Soraia Chaves, se não se importa.

B4. Eh pá! Então se é com a Soraia não é aqui, que eu só posso tratar de processos de TOS loiras, caramba. Siga por favor neste corredor e bata na última porta que está lá o meu colega que trata das morenas.

E lá vai mais uma caminhada até ao Burocrata 5 (B5).

Não se esqueça de reler os diálogos acima, cujas perguntas voltaram a ser feitas nesta fase para depois poder prosseguir com a candidatura.

É sempre uma mais valia para o leitor ter tudo fresquinho na memória.

B5: Tem consigo o boletim de vacinas actualizado?

C: Sim.

B5: O teste de HIV?

C: Sim.

B5: O teste da Hepatite B?

C: Sim.

B5: Comprovativos de isenção se gonorreia, sífilis, herpes genital e chatos no pénis?

C: Sim.

B5: Atestado de ausência de sintomas de disfunção eréctil e/ou inaptidão sexual?

C: Sim.

B5: Declaração de não dívida à Segurança Social, Cartão de Cidadão actualizado, atestado de residência, formulários SEX70, TOS69 e BI6 preenchidos?

C: Sim.

B5: Desenhos manuais coloridos a quatro cores, em papel cavalinho 25gr, das posições que  se propõe a concretizar no acto, até um máximo de três posições?

C: Sim.

B5: Trouxe consigo o preservativo que vai usar?

C: Não. Não sabia que tinha que o mostrar.

B5: Pois, isso é considerado equipamento técnico que tem que ser verificado à priori. Só podemos dar seguimento ao processo depois de efectuada essa vistoria.

C: Mas eu posso ir num instante buscar isso à farmácia e volto já, pode ser?

B5: Agora não pode ser, porque fechamos daqui a 30 minutos e já não aceitamos mais ninguém hoje, Depois mete-se o fim-de-semana, que é prolongado por causa do feriado da próxima semana e portanto só na quarta-feira é que pode cá vir novamente.

C: E depois de trazer isso, é rápido?

B5: Depois de verificadas as condições de segurança do dispositivo a utilizar no seu pénis, tem que fazer um teste  no centro de inspecções que certifique que está apto para cumprir os procedimentos mecânicos de uma relação sexual eficaz e apresentar um documento que comprove não haver risco de aproximação sentimental à TOS. Depois vamos apreciar o seu processo e daqui a aproximadamente um ano damos resposta à sua candidatura.

C: E se entretanto a minha frustração sexual me causar algum tipo de distúrbio mental ou mesmo uma inflamação excessiva da zona testicular?

B5: Aí terá que ver como resolve isso por si ou ver se tem alguma amiga no ministério, porque as candidaturas são muitas e as TOS andam com demasiado trabalho.

C: E se optasse por um dos técnicos em vez de uma técnica?

B5: Aí os procedimentos são outros, mais complexos, e devo-lhe dizer que eles andam agora muito na moda e as requisições têm entrado aos milhares, portanto não vai ser mais rápido.

C: Então o melhor é…

B5: Mão.

C: E não há hipótese de…

B5: Mão.

C: Nem se eu tentar…

B5: Mão, meu amigo.

C: Pois é. É melhor é. Ok, muito obrigado.

B5: Não tem de quê.

Profissão: Nativo

Março 3rd, 2011

Há pessoas neste Mundo cuja profissão é simplesmente ser nativo.

A sua missão é ficar parados o dia todo junto da sua casa típica, envergando um traje tradicional e cumprimentando em dialecto local os turistas, que procuram desesperadamente uma foto-troféu com o indivíduo, exibindo-as posteriormente como se tivessem pescado um espadarte de sete metros na rebentação das ondas provenientes do mar alto.

Os rendimentos dos nativos vêem da contribuição dos turistas que museificam estas pessoas no seu habitat natural, remunerando-os por se manterem “originais” – ainda que os artesanato local que vendem seja fabricado na China, a comida que oferecem comprada numa grande superfície ou os seus trajes obtidos numa loja de disfarces de Carnaval.

A fuga do seu padrão de comportamento expectável será tão surpreendente como um peixe decidir fumar um charro dentro de um aquário, fazendo bolinhas com a boca e dissertando sobre a filosofia de Nietzsche, e por isso não se recomenda.

Esta é a razão porque a ASAE nunca conseguiu vingar na internacionalização, porque se a ASAE se internacionalizasse os índios deixariam de poder fumar o cachimbo da paz, os asiáticos deixavam de vender insectos fritos na rua e os cubanos não mais enrolariam os charutos em cima das coxas de mulatas.O nativo de sucesso é, porém, aquele que não se limita a estar, mas que é pró-activo e criador de pontos de interesse turístico, por exemplo transformando uma simples rocha com uma forma curiosa num bisonte que aí sofreu um desgosto de amor e que enfurecido saltou do penhasco para se suicidar, sendo salvo pela intervenção de um deus local do amor que o rochificou antes que chegasse ao mar.

A natividade (não confundir com o nascimento de Cristo), ou nativismo, encontra maior expressão usualmente nos países economicamente menos desenvolvidos ou em crise, sendo por isso uma profissão de futuro no nosso burgo.

Por isso acho que deveria ser uma prioridade do POPH, cujos responsáveis têm que abrir os olhos para esta realidade e apostar na formação e qualificação de cada vez mais nativos lusos como reforço da oferta turística nacional.

Podem contar com a minha modesta contribuição, já que planeio no futuro deixar crescer o buço às minhas filhas e vestilas de saias pretas, com o devido lenço negro e cesto de vime à cabeça, enquanto os meus filhos usarão desde novos um bigode empatilhado, um garruço, palito na boca e uma sachola.

Vou pô-los a viver num palheiro junto da corte das vacas, para que não lhes falte nada e sejam nativos de sucesso e reconhecidos mundialmente.

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