Papel duplicado

Novembro 11th, 2010

Tancredo Nêspera era um homem do povo, pedreiro de profissão com as mãos empedernidas pela labuta, modesto, aparentemente pouco dado às artes da escrita e desconhecido na vizinhança, dado o seu recolhimento habitual.

Um dia, no intervalo para o almoço, entre papéis de jornais amarfanhados e guardanapos de papel, descobriu dentro de si um escritor, Tarcísio Nereu, homem de grande inspiração, sedutor e de escrita fácil.

Recebeu-o alegremente, emocionado, com honras de abraço apertado, ao nível dos que se guardam para os familiares que regressam de um longo exílio, e acolheu-o em sua casa com a promessa de que nada lhe faltaria.

Desde esse dia, e durante muitos anos, conviveram harmoniosamente.

Tancredo tratava da logística, ia às compras, limpava a casa, organizava as tertúlias, Tarcísio redigia textos singulares, vertia prosa que era lida nos quatro cantos do mundo, declamava poesia de forma sublime e partilhava o seu sucesso de bom grado com Tancredo, seu parceiro inseparável.

Certo dia, cansado dos milhares de quilómetros de tinta percorrida, Tarcísio exprimiu a sua vontade de ver o Mundo, de abandonar a vila onde sempre se foram quedando, de deixar de escrever e partir à aventura da descoberta de novos povos e lugares.

Tancredo não queria acreditar.

Tinham sido anos tão bons!

Longe do trabalho árduo da pedreira, do calor enfornecido da lage e das crateras na pele provocadas pelos instrumentos de trabalho.

Não concebia a ideia de perder todo o conforto e alegoria que brotavam do sucesso da escrita do seu companheiro, e foi invadido pelo pavor desse cenário, que o relegava para dias de trabalho duro e monótonos, com a recompensa de uma côdea tostão.

Foi instintivo o acto de fechar Tarcísio numa sala escura, sem janelas, no piso inferior de sua casa e mantê-lo lá a pão e água, obrigando-o a escrever.

O escritor implorava compreensão, dizendo-lhe que nunca o abandonaria, que estava cansado e que da fonte da inspiração só jorravam agora gotículas baças, mas o pedreiro perdera-lhe a confiança e insistia na sua prisão, ordenando-lhe que escrevesse .

“Quero só mais um escrito, que me sustenha a velhice”, dizia-lhe.

Mas Tarcísio via definhar a sua criatividade a cada refeição negada, a cada sombra no escuro quarto, e a sua pena não conseguia voar pelo papel quando desprovida de liberdade.

Pouco depois deixaram de se falar, o silêncio irrompeu na casa como um líquido espesso que ocupa todos os espaços e tolhe ainda mais os movimentos, sufocando a sanidade.

Tancredo mantinha a guarda, Tarcísio a caneta parada.

O peso da divergência comprimiu-os contra o chão, numa luta que nenhum poderia vencer, até um ponto insustentável em que Tarcísio, desesperado, encontrou um caminho tortuoso e fez um furo na cabeça de Tancredo, por onde escapou, à procura de novas vidas.

Tancredo ficou inerte, abandonado à sua sorte, e foi descoberto pouco tempo depois por um vizinho curioso, jazendo no fétido chão.

A populaça chorou a partida do reputado Tarcísio Nereu, e como que reconhecendo a sua imagem no imóvel Tancredo, enterrou-o, como se faz aos feijões, na esperança de que um dia dali voltem a florescer belas palavras.


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