Cabelos emigrantes

Novembro 18th, 2010

Eu sempre fui um sítio mau para os meus cabelos viverem.

Nos primeiros anos tratei-os sempre com desdém, ignorei-os, raramente os penteei, suei-os até à exaustão e sujeitei-os a alguns puxões, por entre brincadeiras.

Acho que foi aí que começou a sua revolta, e de tão mal tratados resolveram deixar de me obedecer.

Quando lhes comecei a querer dar forma já era tarde demais, já tinham vontade própria.

Comecei então a subjugá-los à minha vontade, com recurso a químicos durante a adolescência, primeiro com toneladas de gel, depois com tufões de laca, de tudo fiz para os moldar coercivamente.

Como perdia muito tempo com isto e não conseguia um resultado minimamente satisfatório, parti para a radicalidade e comecei a cortá-los rente.

Primeiro não os deixava crescer mais do que três centímetros, depois dois, depois um, até que a ameaça do pente zero se tornou uma realidade.

Foi aqui que a vida para os meus cabelos se tornou verdadeiramente insustentável, e terá sido então que decidiram começar a emigrar.

Consciente desta realidade optei por abrir as fronteiras, e evito até usar bonés  nos últimos tempos, para que eles possam partir à vontade, sem barreiras, para o início desta aventura em busca de um futuro melhor em novas cabeças.

É notório o abandono massivo da minha população capilar nos últimos anos, e suspeito que já não vá a tempo de criar condições para o seu regresso – não sei sequer se me apetecia -, por isso só lhes posso desejar boa sorte na diáspora e pedir-lhes que vão dando notícias aos que cá ficam, que são cada vez menos e mais envelhecidos.


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