Aprender a falar

Setembro 21st, 2010

Imaginem que se julgam incapazes de ser surpreendidos, que pensam que já ouviram tudo e que não há absolutamente nada que vos possa apanhar completamente desprevenidos.

Essa é a alturinha certa para que surja algo completamente inesperado, que vos porá completamente embasbacados e sem reacção durante breves instantes, com a boca aberta como se tentassem sorver do ar alguma informação que traga sentido ao que acabaram de lhes expôr.

Foi precisamente isso que me aconteceu hoje.

Após alguns tempo – anos talvez – em que me apercebi que estava gradualmente a perder capacidades vocais e com rouquidão permanente, decidi consultar um otorrinolaringologista para verificar o que se estava a passar dentro da minha garganta.

Não duvido que haja quem pense que só lá fui para poder um dia escrever a palavra otorrinolaringologista neste blogue – e não andarão longe da verdade – mas o facto é que, depois de um exame onde me debati com a necessidade do recurso a técnicas ao melhor estilo de Garganta Funda, mas sem prazer, a imagem no visor pôs a médica a exclamar coisas como “impressionante!”, “isto é fantástico!”, “nunca tinha visto uma coisa destas!”.

Nessa altura chamou outra médica, que mal entrou na sala ficou com os olhos colados ao televisor, como se tivesse acabado de ver Deus retratado na minha laringe, e exclamou “olha que coisa engraçada! como é que é possível?”.

Foi então que, entre muitas exclamações avulsas e vários pedidos de explicação da minha parte – porque começaram só a balbuciar coisas e a falar de mim como se eu não estivesse presente, como a minha mãe fazia com as amigas na rua quando eu era pequeno – , me disseram que estávamos perante um caso raro, já que eu utilizo as cordas vocais ao contrário, ou seja, parafraseando uma médica, “é como se andasse, mas tivesse as pernas ao contrário”.

Isso pode explicar alguma falta de doçura nas minhas palavras, porque afinal de contas eu exprimo-me com os calcanhares para a frente, pensei eu.

Depois ainda interpretei as frases delas como que a dizer “o senhor fala mal”, e pensei “tá bem, mas sou do Norte, é normal dizer palavrões”.

No meu pensamento ocorreu-me ainda “e se eu digo “lambreta”, será que no fundo estou a pensar dizer “aterbmal””?

Não. Isso é parvoíce.

O que se passa na realidade é que utilizo mal as cordas vocais, tensiono a parte que devia estar folgada e deixo passar o ar por onde devia estar a bloqueá-lo para criar vibração.

Para quem passou a juventude a cantar, que faz a vida a conversar com pessoas e que é capaz de vociferar com pujança o mais robusto vernáculo português, esta é uma informação, no mínimo, surpreendente.

Fiquei sem palavras durante uns minutos, e ainda bem, porque se as tivesse ia ter medo de as dizer de forma pouco ortodoxa, o que era extremamente vexatório, porque elas não tiravam os olhos da minha garganta.

Sou, portanto, um tipo que fala muito, mas mal, e por isso vou ter que aprender a falar, começando a terapia da fala já para a próxima semana.

Não me telefonem até lá, porque podem aperceber-se que eu vos estou a falar de uma forma um bocadinho esquisita e depois eu fico envergonhado.


3 Responses to “Aprender a falar”

  1. Rodrigo Lima on Setembro 21, 2010 16:50

    Eu sempre achei estranha a maneira como falas, mas nunca te quis dizer que tinhas uma maneira apaneleirada de falar, isto é, as cordas vocais levar no sítio “errado”, o que, neste contexto, deixa de ser um caso raro!!!
    Abraço e as melhoras!

  2. Bola on Setembro 22, 2010 14:29

    Xii!!Como as pessoas mudam!!
    “deixo passar o ar por onde devia estar a bloqueá-lo para criar vibração”…e se dúvidas ainda subsistissem…
    Também te desejo abraços e as “melhoras”.

  3. Marta on Setembro 23, 2010 16:50

    Bem..eu só espero que consigas aprender a falar direito até ao dia 15 de Janeiro… Não queremos ver o padre perplexo, quando disseres o SIM pois não? 😉
    Beijoca

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