A Marquesa de Sade

Setembro 13th, 2010

O diálogo tido há umas semanas atrás,quando me disseram que tinha que ser sujeito a terapia, soou-me mais ao menos assim:

“Vem cá todos os dias de manhã, põe-se em cima da Marquesa, enfia a cabecinha no buraquinho e vai ficar novo!”

A minha libido correu a apanhar o comboio imaginário que passava pelo apeadeiro das rambóias medievais, numa viagem de libertinagem em que a Marquesa seria a principal artífice das minhas melhoras, manipulando prazerosamente o meu corpo com mestria.

Sendo esta aventura prescrita por um médico, estava ilibado de qualquer ilícito conjugal, ficando assim o cenário perfeito.

A realidade norteia-se, no entanto, pelo princípio básico que inspirou a criação do io-iô, e trouxe-me de volta num instantinho.

Durante vinte dias deitei-me na Marquesa, sim senhor, enfiei a cabeça no buraco, não há dúvidas, só que a dita senhora do meu sonho eroterapêutico não passava afinal de uma cama branca e fria, estática, desprovida de arte e intervenção activa, cujo buraco largo se encontrava ao nível do meu crânio, permitindo apenas que este se apoiasse, ficando a observar durante uma hora o solo, sem mexer.

Durante esse tempo não tive um único minuto de prazer, sofrendo com a dureza de alguns tratamentos e com a imobilidade necessária para a prossecução deles.

Quando me levantava, a Marquesa não me dava qualquer palavra de apoio, um abraço ou um aceno que fosse e ficava ali, impávida e gelada a ver-me ir embora, com o buraco a parecer transformar-se num sorriso sádico de gozo, como se tivesse tido muito prazer em me ter ali, a sofrer.

Tudo ficou então claro para mim.

O nome deste aparelho só pode ter vindo, digo eu, desse prazer que ela parece sentir no sofrimento das pessoas, qual Marquês de Sade, regozijando-se por poder receber vários pacientes que lhes satisfaçam essa necessidade, hora após hora.

Maldita sejas, Marquesa!

Espero tão cedo não te pôr o corpinho em cima.


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