Venha o Outono… democrático

Setembro 24th, 2010

Hoje acordei com a esperança que o primeiro dia de Outono trouxesse vontade de actuar sobre a nossa democracia.

Uma árvore democrática que se preze é, por definição, de folha caduca, deixando cair as suas folhas velhas regularmente para permitir o surgimento das verdes folhas, sinal de vitalidade e pujança.

Ao olhar para o aspecto da nossa árvore, cujos frutos são cada vez mais escassos e de pior qualidade, fica a certeza de que é indisfarçável a doença e que é evidente que quanto mais altas estão as folhas mais escuro é o seu aspecto, acastanhado a um ponto putrefacto, da cor do dejecto em que se vai tornando a nossa justiça, a nossa educação, a nossa economia, a nossa saúde.

Então é tempo de caírem, e o Outono deveria servir para isso.

No entanto, parece-me que a ordem natural das coisas está alterada por um qualquer bicho que se alojou na árvore e que lhe mudou a essência, encarregando-se de tornar perene a folha e com essa perenidade deixar apodrecer todos os seus ramos.

A raiz, a base dessa árvore, continua a ser adubada com facilitismos e subsídios ocos, numa terra de falsas novas oportunidades, que o encaminham para um enterrar constante num sub-solo de mediocridade, inconsciência e indiferença, perdendo cada vez mais força para dar nova vida à árvore.

Se o Outono não actua naturalmente, ao menos que surgisse algum jardineiro que a podasse e retirasse essas folhas castanhas e pretas, em vez de continuar esta árvore a ser tratada por uma qualquer máquina partidária com o sensor óptico danificado, que se recusa a ver a verdadeira cor da folha e se limita a verificar que as folhas nasceram vermelhas, laranja, rosa ou azuladas, deixando-as eternamente a apodrecer nos centenários ramos, assistindo letargicamente ao lento e penoso definhar da árvore.

Eu gostava muito que chegasse esse Outono democrático, e não fazia mal nenhum que viesse acompanhado de umas boas castanhadas!