Compra brava

Julho 28th, 2010

Um dos grandes defeitos do comércio tradicional, para mim, é não ter sabido adaptar-se aos novos tempos, nem ter modificado a maneira de estar no negócio, indo buscar inspiração a outras tradições nacionais.

As grandes superfícies souberam fazê-lo, e, hoje em dia, todo o acto de comprar em superfícies comerciais modernas se assemelha a uma tourada.

Nesta época de saldos, as práticas tauromáquicas nas compras ganham ainda maior expressão, com os grandes cartazes que indicam os descontos, em substituição das capas vermelhas, a terem a função de atrair o cliente, que corre furiosamente para dentro da loja.

Mal entra fica meio atordoado, com o ambiente carregado de informações de  múltiplos descontos, que o deixa indeciso para onde se deve dirigir, e a música alta, que indicia que vai começar a lide.

À sua frente apresenta-se, vestido a rigor, o empregado de loja, destemido, que toma a iniciativa de abordar o cliente de frente, como que a dizer “Eh! Cliente liiiiiindo!”, e provocando-o para ver se ele investe.

A partir daí dá-se todo um bailado, onde o cliente adopta uma postura mais agressiva na procura do melhor negócio possível, evitando o galopar dos preços e tentando ao mesmo tempo esquivar-se das abordagens do lojista.

Mas este persegue-o pela loja, insistindo e cansando o cliente até ao momento da estucada final, que é sempre tentada quando este se encontra encostado à caixa.

Infelizmente verifica-se que muita gente, sem alternativa, vê-se obrigada a trabalhar em lojas e nota-se que lhes falta perícia ao lidar com os clientes.

São esses que ficam mais sujeitos às “marradas” destes, e que normalmente não resistem à sua violência e ao preenchimento do livro de reclamações pela “afición”.

O paralelismo entre a tauromaquia e as compras segue até ao final, já que é usual que os lojistas, adoptando uma postura de vacas chocas, acompanhem o cliente até à saída, assegurando que a arena fique livre para o seguinte.

Ainda só não cortam orelhas depois de uma venda de grande sucesso, mas se prestarem atenção verão como há muitos clientes a sair das lojas completamente esvaídos.



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