Sindicalista explosivo

Fevereiro 9th, 2010

– Muito boa tarde. Estamos em directo de Óbidos, onde há poucos dias foi desmantelada uma fabrica de bombas da ETA e temos aqui connosco o senhor Eliseu Estoura, presidente do SOBI, Sindicato dos Operários Bombistas Ibéricos…

– Secretário-geral.

– Secretário-geral, peço desculpa. O que tem a dizer sobre o encerramento desta fábrica sr. Estoura?

– Olhe, eu acho que tá mal! O País está no estado em que está, toda a gente sabe disso, o investimento estraungeiro tá tuodo a ir prós romenos ou prá China, e assim que alguém quer pôr aqui dinheiro, cum boa buntade, daum-lhe cabo do negócio. Num acho beim e acho qué mau.

– E como se sente ao ver acabar com os postos de trabalho que tinham sido criados recentemente?

– Ó amigo! Parece que me implode o coraçoum…

– Isso até nem é mau, porque não faz muitos destroços no resto corpo não é?

– …

– Peço desculpa por interromper, continue por favor.

– Ora bem, o que eu taba a dizer é que me sinto mal, porque é gente jobem, que quer pôr a vida a bombar e num lhe daum oportunidades, tá a cumprender? Deixam-nos por aí aos caídos, parecem mochilas abandonadas… E mais! Num sei porque  continuo a perseguir os trabalhadores… ãh?!… porque num me lembro, por exemplo, quando fecharam outras fábricas, de ver na televisoum e na rádio fotografias dos trabalhadores que despedirum! E dos administradores da ETA taumbeim num vejo fotografias em lado ninhum!

– É a estas fotografias que se refere?

– É sim senhor, já veu isso? Tem algum jeito?

– O que me pode dizer da ETA?

– Eu acho que nessa o rapaz deve ter dormido mal e por isso…

– Não, não é esta fotografia. Perguntava-lhe sobre a organização que geria a fábrica… a ETA?

– É uma bregonha. Nós já tínhamos informações que isto ia acontecer mais dia menos dia e tentamos inclusivelmente… ãh?!… ligar par lá e falar com os senhores. Num sei porquê, nunca conseguimos, parece que se escondem e ando sempre a fugir ou assim. Ma nós já tamos habituados, porque o patronato é sempre assim e nunca tenta arranjar acordos cum os sindicatos. Além disso dão munto más condições de trabalho: fábricas sem janelas, sítios de difícil acesso, não podem usar o chuveiro nem pentes e o lenço que usam ao pescoço tem que servir taumbeim para assoar o nariz e servir de garrote para quem precisar. Uma desgraça.

– Está mau o negócio para o vosso sector?

– Tá! Aqui em Portugal tá munto mau, porque num se dá o devido valor. Os das bombas de gasolina, por exemplo, podem ganhar dinheiro como tudo e aundar aí em bons carros e assim. Nós, se quisernos fazer vida, temos que emigrar pá Arábia ou assim, ou viver de bombinhas de Carnaval que só dá uns tostões. Num tá correcto. Olhe, ás vezes apetece é rebentar cum tudo e ir embora de vez, sabe?

– Muito obrigado sr. Estoura, por nos ter ajudado a perceber melhor os problemas dos trabalhadores.

– Obrigado sou eu, e queria taumbeim agardecer ao director da prisão de Custóias, por me ter emprestado a carrinha celular pa vir aqui hoje.

– Boa tarde.

– Boa tarde.


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