Puxe ou empurre?

Fevereiro 24th, 2017

Numa bela e gélida manhã de Inverno, daquelas que desaconselham a urinadela masculina na via pública, de modo a evitar embaraços acerca da dimensão percebida da sua masculinidade, procurava eu um WC onde pudesse libertar confortavelmente, e de forma privada, o incomodativo líquido acumulado na bexiga.

Eis senão quando (bela expressão que não sei se se escreve assim), me deparo com duas portas, uma com um ícone representativo de um cidadão do sexo masculino e outra com um ícone semelhante, desta feita indicando ser ali o local adequado para cidadãos portadores de deficiência física.

Até aqui tudo muito bem.

O que me causou espécie (como soe dizer-se no norte do País), foi aquilo que entendi como sendo as regras de utilização das premissas para quem as usa com o intuito de defecar, escritas garrafalmente nessas portas.

O conselho inscrito na porta destinada às pessoas com deficiência era pertinente e avisado, como poderá o leitor constatar na imagem.

É um velho método, popular, muito eficaz na expulsão das impurezas sólidas do organismo, sendo que nunca é demais relembrar que essa é a forma mais aconselhada para o fazer.

Muito bem, caro gestor de espaço público!

Mas ao olhar para o procedimento aconselhado aos cidadãos do sexo masculino, fui imediatamente assaltado pela perplexidade e posteriormente pela revolta (que já só levou o que sobrava, emocionalmente).

Como se conseguirá expelir eficazmente o trolhão, lançar o calhau à água, lograr o alívio máximo… empurrando?!?

Que pretenderá obter o gestor daquele espaço, com este aviso tão desviante e enganador, cuja leitura é impossível evitar ao incauto pré-defecador?

Não deslindei outra justificação que não a de estarmos perante uma tropelia de mau gosto, uma espécie de “apanhados”, uma inaceitável tentativa de confundir as mentes dos utilizadores daquele recinto, para puro gozo de quem observa as câmaras, que certamente existirão, estrategicamente plantadas juntos dos sanitários vasos.

Denuncie-se pois o acto pérfido desta personagem e alerte-se os cidadãos para não se deixarem cair nesta esparrela.

Puxem senhores! Puxem!20160829_170452

Buffet por carta

Janeiro 20th, 2017

Hoje encontrei num panfleto de um restaurante japonês uma novidade metodológica.

Uma inovadora experiência de consumo, que me agradou de sobremaneira por aliar a gastronomia à literatura.

Constava neste panfleto: “Buffet por carta”.

Que belas reminiscências do tempo em que as missivas permitiam que se mastigasse a palavra e se digerisse a mensagem na comunicação entre as pessoas!

Que alegria para um indivíduo que gosta de escrever, poder verter para um texto a sua seleção de sabores, de entre uma ampla panóplia degustativa que este estabelecimento oferece.

Eis o meu primeiro exercício nesta corrente literária.

“Querido Restaurante Japonês,

Espero que estas linhas te encontrem bem de saúdinha.

Nós por cá lá vamos andando, graças a Deus, enquanto batemos na madeira para que a sorte não mude.

Temo-nos lembrado muito de ti nos últimos tempos, e a saudade é muita.

Os enchidos e açordas são bons, mas sabes como fico com gases quando abuso, e a esta hora sinto-me capaz de dar a volta ao mundo sem recurso a um balão, de tão cheio estar com o ar que arrecado internamente.

Por aqui ainda há muitos tabus à volta da flatulência humana e as pessoas incomodam-se muito quando esta ocorre, de maneira que vou retendo, na medida das minhas possibilidades.

O Palatinho manda um beijo e diz que gosta muito de ti.

Ai, que ansiedade e vontade de explorar novamente o teu buffet, restaurantezinho querido!

A ver se é hoje que tiro a barriga de misérias, japonoca da minha perdição!

De entre as todas as iguarias do teu buffet sem igual, selecionarei hoje 2 Uramakis de salmão, 3 Sashimi de atum e 3 Sashimi de peixe branco, sendo que já sabes que não podem faltar os meus 4 Tempuras de camarão.

Ah! E pensavas que ia ficar sem os meus 2 Akinaimaki da praxe, não? Eheheh.

Sabes que isto nunca me pode escapar, não é verdade?

Para sobremesa, um Muramaki de frutas e está feito.

Vai estar tudo uma delícia, como sempre, não tenho dúvidas.

Despeço-me calorosamente, com um agradecimento profundo pela tua generosidade gustativa e vasta oferta, a preços confortáveis para as minhas possibilidades.

Um abraço muito apertado e até já.”

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Câmaras motivacionais

Setembro 8th, 2016

Já repararam na força motivacional que uma câmara pode exercer no público de um estádio, seja ele de futebol, beisebol ou nos Jogos Olímpicos, em qualquer parte do mundo?

Se uma câmara foca determinado indivíduo ou grupo durante um evento desportivo, passando essa imagem no ecrã do estádio, a equipa pode estar a perder por 86-0, pode a imagem estar a interromper uma acesa discussão entre um casal ou estar a cair um autêntico dilúvio de canivetes, que o efeito é sempre o mesmo: acenos efusivos para a câmara, carregados de alegria, frenéticos e muitas vezes histéricos.

Tudo se esquece e o que importa é a entrega total e incontida àquele momento tão especial.

Parece que saíram dez euromilhões aos visados, como se aparecer nos ecrãs do estádio fosse a coisa mais importante da vida deles, como se esse fosse o único propósito que justifica a sua presença ali, a derradeira recompensa, que carregarão na memória para sempre, a melhor história de vida que hão-de contar aos seus descendentes.

A pergunta que me faço várias vezes é: e se aproveitássemos esta força motivacional das câmaras em sítios habitualmente aborrecidos ou tristes?

Como seria se nos velórios se instalasse um ecrã, alimentado por uma câmara que de tempos a tempos focava o choroso público?

Qual seria o efeito, numa repartição de finanças, se a espaços aparecessem, no ecrã das senhas, imagens das pessoas que pacientemente esperam pela sua vez de serem crucificadas fiscalmente?

Visualizem a cena e imaginem a viúva a interromper o pranto para mostrar com um sorriso histriónico o cartaz com os dizeres “Amor, ainda estou aqui!”, ou o insatisfeito contribuinte a saltar da cadeira e a levantar a camisa com uma mão mostrando a inscrição “IRS sucks!” enquanto acena com a outra um alarve pirete e mimetiza uma gargalhada à Joker?

Tudo seria mais divertido, mais leve, ser-nos-ia dada a sensação de que estar naquele sítio, naquele momento, é algo que realmente vale a pena, prepararíamos a nossa presença com outro espírito, mais positivo, ensaiando o que faremos se formos os felizes contemplados com aqueles breves segundos de imagem.

Mais que tudo, tornaríamos mais suportáveis e divertidos esses momentos de desagrado ou dor e espalharíamos sorrisos e acenos por este mundo, por vezes tão apagado de emoções positivas.

Se tiverem oportunidade, experimentem nos vossos locais de trabalho e depois digam como correu, está bem?
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Legalizar para prevenir fogos

Agosto 16th, 2016

Sim, confirma-se, não devo ser muito bom da cabeça para voltar a escrever neste blogue passado mais de dois anos.
Ainda para mais recomeçando com um tema em que a nossa classe política tem dado cartas, em termos do que é risível.
Tristemente risível, dir-me-ão, mas às vezes só nos resta essa luz de comédia negra, no meio do absoluto e mais do que doloroso cinzentismo.
Acontece que me parece evidente que a solução para este problema dos incêndios é óbvia e só não se fala abertamente nela por um pacóvio preconceito social.
A chave do problema dos incêndios está na prevenção.
Todos concordamos, certo?
Então legalize-se a prostituição, senhores!
Restrinja-se a legalização à prostituição nas bermas de estradas florestais, mas legalize-se.
Já alguma vez viram um repórter da CMTV a entrevistar uma chorosa profissional do sexo que tenha visto arder a mata que é seu lugar de trabalho?
Se isso tivesse acontecido, acreditem que a CMTV já o tinha feito.
Mas ninguém o fez, porque as matas onde se mercantiliza sexo não ardem!
Talvez porque a presença na estrada destas senhoras afasta os potenciais incendiários, com medo de serem reconhecidos no seu meio como putanheiros, que é bem mais grave socialmente do que ser incendiário.
Ou simplesmente porque estas damas são vigias permanentes destes espaços arborizados.
Ora, a chave para os incêndios está, evidentemente, em criar condições para a proliferação de profissionais do sexo pelas matas e florestas do nosso país.
Além do licenciamento de prostituição ao nível das bermas, criem-se também licenças especiais para o desenvolvimento de bordéis florestais (BF), em casas de árvores instaladas a 20 metros de altura.
Além da magnífica paisagem facultada ao cliente fornicador (mais um atractivo que não é de descurar, numa perspectiva de negócio), permitirá a detecção efectiva, de longo alcance, de potenciais focos de incêndio.
Que bom seria que um potencial incêndio fosse interrompido como muitos coitos que por aí andam – alguns de boa qualidade, note-se – por um simples telefonema para o quartel:
“- Tou? Bombeiros? Zé? Sim, é a Tina do BF172 do Buçaco – Oh! Sim amor! Assim! – Não é para ti Zé. Estou a trabalhar. Tenho que ser rápida. É para avisar que estou a ver muito fumo a uns 3km a oeste daqui, perto da estrada para a Pampilhosa do Botão – Mete-o todo! Isso! – Deixa de te rir ó palhaço! – Não é contigo ‘mor, é o bombeiro que é parvo, desculpa. Tu pões-me quente. Não pares! Sim! – Olha, Zé, na passagem, traz-me camisinhas fazes favor, que hoje tenho aqui a casa “on-fire” e sabes como eu sou obcecada com a prevenção. Obrigada!”
Estou até em crer que esta medida levaria a um aumento significativo da humidade relativa do ar nestas zonas, dificultando assim, também fisicamente, a propagação dos fogos, mas esta hipótese carece ainda de estudos científicos que a suportem.
Chega a ser romântico pensar que aquelas que passam a vida a apagar fogos hormonais venham a contribuir para evitar fogos florestais, mas é, acima de tudo, uma medida de pragmatismo, bom senso e potenciadora de desenvolvimento económico-ambiental, que urge acionar.
Podes assinar por baixo, que chegando às 1.000 assinaturas prometo que crio uma petição on-line 🙂

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Dispidida

Maio 8th, 2014

Sempre me senti um cidadão do mundo, no sentido em que faz parte de mim a procura pelo contacto com outras culturas, a enorme paixão por viajar, a vontade de descoberta do que está para além da minha rua, do meu bairro, da minha cidade e do meu País.

Apesar disso, atravessei estas primeiras décadas de vida tendo por base o meu território natal, onde pude contar quase de forma permanente com a proximidade da maior parte da minha Família e Amigos.

Também por cá desenvolvi o meu percurso profissional, sendo sempre pontuais as minhas deslocações e contactos com o exterior.

Nunca escondi a vontade de poder experienciar a vida de residente noutro país, inserido noutro ambiente sócio-cultural e económico.

Enquanto estudante poderia ter feito Erasmus, não o fiz, enquanto recém-licenciado poderia ter integrado o programa Inov Contacto, também não o fiz, e as raízes foram crescendo na pátria mãe à medida que ia evoluindo profissionalmente e fazendo crescer a Família.

Damos mais importância aos pequenos nadas desta proximidade à medida que ficamos mais velhos, penso eu, e estava por isso confortado com a ideia de que me sentia bem assim e que era uma ótima opção de vida.

A vida, no entanto, mudou muito nos últimos tempos, e aquilo que era uma opção passou rapidamente a tornar-se uma necessidade.

Uma necessidade muito forte.

Não só pela falta de emprego, pelos constrangimentos económico-financeiros ou pela falta de esperança, mas uma necessidade cuja base se constitui hoje numa revolta muito grande, comigo próprio e com os meus concidadãos, pelo estado a que nós deixamos chegar este país.

Acreditem ou não, a minha convicção é a de que estamos como estamos por culpa própria e não pelos políticos que temos ou pelas redes de interesses instaladas.

Eles existem porque nós deixamos e continuamos a alimentar toda essa corja com a nossa indiferença, o nosso conformismo, a nossa passividade, enquanto comentamos na rua, no café ou no barbeiro, indignados, a última barbaridade do parlamento ou da justiça.

Indignados mas não atuantes, serenos, como também faz parte da nossa lusa maneira de ser.

Talvez  nos falte a beligerância de outros povos, talvez foquemos mais as nossas forças naquilo que podemos fazer no nosso raio de ação mais próximo, mas o facto é que hoje, tantos de nós – da minha geração e outros mais novos – com pêlo na venta, com competências excecionais, com ambição e criatividade desmesuradas, nos vemos a ser “empurrados” para fora do país, na busca da concretização dos nossos sonhos, da nossa auto-realização e da fundação das bases para um futuro digno para os nossos filhos, e aceitamos isso já com grande naturalidade, como uma verdade insofismável, como uma causa perdida.

Talvez nos devêssemos bater de forma mais veemente pelo direito a ter um país livre de corrupção, politiqueiros e subserviência lobista, mas não estamos para aí virados, sentimos de forma pragmática que é uma luta com armas desiguais e que as forças a ser empregues nela podem ser canalizadas para algo efetivamente produtivo e gerador de um futuro melhor.

Ainda que o preço a pagar seja a distância a este país e estas gentes que tanto amamos na sua essência mais pura.

O que é um facto é que Portugal, hoje, não tem nada para oferecer a quem tem o mínimo de valor, vontade e dedicação.

Há um aproveitamento massivo da palavra “crise” para justificar salários em atraso, contratações sem salários base, recurso cíclico a trabalho temporário, com ordenados muitas vezes abaixo do salário mínimo, encapotado por uma qualquer desvio legal que permite fazê-lo, despedimentos ilegais ou coação permanente nas empresas.

Remunerações insultuosas, desrespeito pelo trabalho desenvolvido, impunidade total, acesso deficitário a boa educação e cuidados de saúde, impostos esmagadores, caciquismo, tudo isso desmotiva e faz com que, aos poucos, seja quase com alívio que vemos chegar uma oportunidade no estrangeiro para tocar a nossa vida para a frente.

Vou em breve abraçar uma nova fase da minha vida, com muita esperança, motivação e alegria, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde vou assentar arraiais e fazer crescer a minha vida familiar e profissional.

Por muito que tenha procurado esta oportunidade, sinto-me neste momento como uma palhinha num cocktail de emoções, que à medida que vai girando dentro do copo vai encontrando felicidade, tristeza, saudade, curiosidade, paixão, amor, revolta, desprendimento, conformismo, impaciência, ansiedade, ambição, confiança, coragem, medo, angústia, excitação, segurança, motivação, e tantas outras coisas, num turbilhão que me faz continuar a girar e a sentir-me vivo e com vontade de seguir em frente, decidido e com a certeza de que este é o caminho certo para nós.

Fisicamente vou estar um bocadinho mais longe deste cantinho lusitano, mas não vai haver dia em que não esteja cá, e com os de cá, porque as distâncias encurtam-se quando os corações são grandes e a tecnologia ajuda.

É uma despedida?

É.

Como quando saímos de casa e gritamos para que toda a gente lá dentro ouça, com a porta já semi-fechada, “Até logo”!

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